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«Diário do SUL» em parceria com a Rádio «Telefonia do Alentejo» entrevistam Mariana Chilra, presidente da Câmara Municipal de Alandroal

“O Alandroal não é, nem nunca foi um concelho perdido. É nas tradições e no turismo que tem futuro”

Mariana Chilra, presidente da Câmara Municipal de Alandroal, fez um balanço positivo do seu mandato à frente do executivo desde 2013. Apesar do buraco financeiro que disse ter encontrado, maior do que estava à espera, a advogada e desde então autarca avança que percebeu que o único caminho que tinha pela frente era fazer o saneamento das contas públicas.

Maria Antónia Zacarias

17 Maio 2017 | Fonte: Redacção

A edil afirmou que o controle das despesas, o rigor na gestão, a aquisição de serviços a preços mais baratos e o envolvimento das instituições foram as estratégias que, a seu ver, permitiram que fosse possível reduzir as dívidas e juntar os meios e os recursos para conseguir fazer tudo o que o executivo afiança que realizou. Apesar de ter assumido que os passivos condicionaram toda a atividade da Câmara, Mariana Chilra garantiu que conseguir concretizar projetos que estavam estagnados e lançou outros, dos quais destaca a aprovação da marca “Vale Sagrado” com vista a potenciar o turismo como um grande contributo para o desenvolvimento do concelho.

Qual é o balanço que faz do mandato à frente do município?

O balanço é positivo, apesar das dificuldades no trabalho, como tal divido-o em duas fases. A primeira que assentou nos primeiros dois anos do mandato que foram muito difíceis devido à situação financeira da Câmara. Encontrámos uma autarquia tecnicamente falida, obrigada a um saneamento financeiro que, neste caso, foi o Fundo de Apoio Municipal, bem como vários vícios e alguma desorganização. Como tal, estes dois anos foram de intensíssimo trabalho que muitas vezes as pessoas não viram cá fora o que se estava a fazer. Tivemos que arrumar a casa, conter as despesas, rigor na gestão do dinheiro público e estabelecer parcerias com todas as entidades do concelho em todas as áreas.

 

Como foi lidar com os credores à porta da Câmara Municipal?

Tivemos que efetuar acordos de pagamento com os credores porque estarem a pedir permanentemente o dinheiro, não foi fácil. Tenho que salientar ainda que nos encontrámos com processos judiciais a condenarem a Câmara ao pagamento da água já com sentenças dadas. A acrescentar a isto havia um plano de saneamento financeiro que não tinha sido cumprido, existindo mesmo ameaças de penhoras de contas. Foi um tempo em que trabalhámos muito, gastámos muitas energias, mas foi este esforço e esta disciplina que impusemos a nós próprios que nos ajudou a preparar os outros dois anos. Aí chegámos à segunda fase em que pudemos fazer um trabalho diferente, no qual tivemos que recorrer a muita criatividade.

 

Isso significa o quê? Teve que trabalhar com “a prata da casa”?

Sem dúvida. A criatividade levou a que tivéssemos que inventar e fazer pelas nossas próprias mãos. Um exemplo disso foi o facto de termos estabelecido parcerias com várias entidades. Vamos ter entre os dias 3 a 12 de março a mostra gastronómica do peixe do rio que é um projeto que vem sendo desenvolvido desde há muitos anos e que mostra o que acabei de dizer. No que toca a espetáculos musicais decidimos pôr os nossos grupos, os nossos recursos de grande qualidade que mostram as nossas tradições a fazer a animação. Vamos fazer um encontro de “saias” - uma forma diferente de cantar, um cante alegre quando iam para as mondas, ceifas, azeitona e que espelham de improviso o que se está a sentir e que deu origem às cantigas de despique em verso cantado – é a forma de promover as nossas tradições e as nossas raízes. Envolvemos os nossos restaurantes a participar nesta iniciativa e vão ser eles que vão cozinhar, também os alojamentos locais e os agentes turísticos vão dar tudo o que têm. Todas estas estratégias e outras tantas permitiram reduzir a dívida em mais de um milhão de euros por ano.

 

Depreendo que o buraco financeiro condicionou a realização de projetos. Qual era efetivamente o valor da dívida da autarquia?

Quando iniciámos o mandato identificámos uma dívida de cerca de 21 milhões de euros, mas havia anda a dívida escondida que nós entretanto registámos. Apurados os valores a 31 de dezembro de 2016 temos uma dívida de 18.330.000 euros que ainda é bastante. No ano passado recebemos a primeira tranche do Apoio Municipal, depois de ter sido aprovada, em 2014, a Lei do Fundo do Apoio Municipal a que obrigatoriamente aderimos porque tínhamos uma dívida superior a três vezes a receita dos últimos três anos. Face a isto construímos o processo de saneamento financeiro que foi aprovado no ano passado e recebemos 12,5 milhões de euros. Com esse dinheiro já pagámos grande parte das dívidas aos bancos, às Água do Centro Alentejo e parte a alguns fornecedores. Temos as contas agora mais equilibras e condições para fazer trabalhos para o futuro. Ainda assim conseguimos realizar os projetos que estavam iniciados ou previstos.

 

Que projetos foram esses?

Fizemos obras e pagámos de imediato para não aumentarmos a dívida. Dou exemplos como a finalização da casa mortuária, a requalificação da rede de abastecimento de água numa freguesia do concelho, mais precisamente em Santiago Maior, a creche foi concluída, conseguimos dar seguimento à eletrificação de montes rurais e explorações agrícolas, intervimos na estrada municipal, cuja que já estava adjudicada, mas que não tinha o visto do Tribunal de Contas. Também concluímos o posto da GNR e fizemos vários pequenos arranjos, tudo com o intuito de proporcionar melhor qualidade de vida à nossa população.

 

Quais são, em seu entender, as marcas do seu mandato?

Saliento o saneamento financeiro e resultados obtidos de recuperação financeira da Câmara. Fizemos o que pudemos, mas só depois de controlar a dívida da Câmara. Foi um desafio muito grande fazer investimentos e reduzir dívida, mas conseguimos fazê-lo com o objetivo de ter um concelho melhor e desenvolvido. O orçamento para 2017 apresenta cerca de dois milhões de euros para investimentos, o que é um bom exemplo. No entanto, entendemos que temos que olhar para as edificações que podem ser requalificadas, em vez de fazer novas. A Biblioteca Municipal tem os tetos a cair, está completamente degradada e é uma construção que ainda não está pronta. Logo precisa de intervenção urgente. O mesmo acontece com a repavimentação de várias ruas e vias nas zonas mais críticas e na melhoria no saneamento para adaptarmos o que existe às necessidades atuais.

 

Acredita no concelho? Que potencialidades identifica e como perspetiva o futuro?

Apesar de todas estas dificuldades, o Alandroal não é, nem nunca foi um concelho perdido. Tem futuro e poderá ser brilhante dependentemente da gestão que vier a ser feita nos próximos anos. Penso que a aposta deve assentar no turismo. Nós temos um território riquíssimo em termos históricos, arqueológicos, paisagísticos, gastronómicos e de tradições. Tudo isto merece um tratamento diferente daí a criação de um projeto que está na Direção Nacional de Cultura para decisão que é a classificação como sítio de interesse nacional de uma zona emblemática e riquíssima do Alandroal, única e associada também ao turismo religioso, que é aquilo a que chamamos o vale sagrado. Este projeto que já estamos a desenvolver há dois anos teve agora um passo importante que foi a aprovação da marca “Vale Sagrado”. Esta notícia é em primeira mão e se nós conseguirmos potenciar o turismo será um grande contributo para o desenvolvimento do concelho. Se pegarmos no trabalho que estamos a fazer com restaurantes, com agentes turísticos, conseguirmos criar postos de trabalho. Ainda agora, este ano, na mostra gastronómica do peixe do rio vamos ter 15 restaurantes a participar, 15 alojamentos e já entraram mais projetos na Câmara para a construção de mais hospedaria, tal como um parque de campismo e um de caravanismo. O passo seguinte é a certificação de produtos genuínos, o que as pessoas da terra sabem fazer. Por isso, eu creio que nós vamos ser muito mais atrativos contribuindo para o desenvolvimento económico local.

 

Agora a pergunta inevitável. Vai recandidatar-se?

Não há resposta ainda para essa questão que me coloca. A minha vontade há-de depender do coletivo. Sabemos que estamos em ano de eleições e que essa pergunta se impõe. Na CDU e no PCP temos uma prática que é uma decisão tomada em conjunto. Neste momento, o processo está no início. Ser candidata ou não, estar no apoio a candidatos, tudo está em aberto, não partindo de mim, mas como reitero, do coletivo. Este trabalho é difícil, mas gratificante. Gosto do que estou a fazer, estou empenhada nos desafios que tenho pela frente, mas a decisão de me recandidatar não depende de mim.

 

O que aconselha ao seu sucessor, caso haja, e quem quer que seja?

A quem for candidato e quem vier a vencer eleições, eu aconselho a seguir o caminho que está demonstrado, neste momento, que pode e que recupera a situação financeira do concelho, que abre as portas para a construção e desenvolvimento de vários projetos. Um objetivo que poderá dar ao Alandroal um futuro que há anos estava comprometido e que, atualmente, está totalmente em aberto e já começa a dar sinais de que é possível. Um futuro muito melhor para todos, nomeadamente em termos de emprego, de combate à desertificação, ao envelhecimento das populações é o que desejo. Portanto, se este caminho que foi iniciado neste mandato for prosseguido, eu creio que o Alandroal tem todas as potencialidades. Aquilo que eu desejo é que eu ou a próxima pessoa que ficar a liderar a autarquia tenha perspetiva e que não volte atrás, correndo o risco de comprometer o destino deste território.

 

Qual é a mensagem que deixa a todos os alandroalenses?

Eu sei que todos os alandroalenses adoram o seu concelho e querem para ele o melhor. Portanto, a mensagem que eu lhes deixo é que, neste ano de eleições, não podem fechar os olhos àquilo que aconteceu anteriormente, têm que estar de olhos bem abertos, não podem embarcar em rp0omessas, devem perceber qual a realidade do concelho e devem estar disponíveis para trabalhar porque se estiverem todos juntos hão-de ser uma força maior a ajudar a construir este Alandroal que todos nós queremos.

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