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“Diário do Sul” em parceria com a Rádio “Telefonia do Alentejo” entrevistam Maria Clara Safara, presidente da Câmara Municipal de Mourão

“A restruturação da dívida não foi permitida pela Assembleia Municipal e o concelho perdeu com isso”

Os constrangimentos financeiros associados aos entraves feitos pela Assembleia Municipal para restruturação da dívida do executivo foram, de acordo com a presidente da Câmara, Maria Clara Safara, a razão para um mandato difícil que exigiu uma gestão rigorosa.

Autor :Maria Antónia Zacarias

Fonte: Redação

12 Junho 2017

A autarca salienta, contudo, que mesmo assim ainda foi possível fazer pequenos projetos, nomeadamente algumas requalificações urbanas na sede e nas freguesias. A modernização administrativa e a candidatura de projetos a fundos comunitários foram outras das estratégias concretizadas. No entanto, Maria Clara Safara lamenta que a barragem de Alqueva não esteja a ter ainda os impactos positivos que eram esperados para o concelho. A atração de investidores, rega e o desenvolvimento turístico estão longe das suas expetativas. No entanto, garante que não é mulher de virar costas aos problemas e aos desafios e, por isso, recandidata-se à Câmara Municipal por acreditar que os munícipes reconhecem o seu esforço perante as adversidades.

Qual é o balanço que faz do seu mandato?

Houve uma grande preocupação com a restruturação da dívida. Tínhamos uma dívida de mais de dez milhões de euros e conseguimos reduzir um milhão e 400 mil euros. Tínhamos aderido ao Fundo de Apoio Municipal (FAME) para que a nossa dívida conseguisse ter juros mais baixos. Além disso, possuímos um empréstimo de saneamento financeiro com juros na casa dos 2.40, um Programa de Apoio à Economia Local (PAEL) numa média de 3.20 e às Águas do Centro Alentejo estamos a pagar sete por cento de juros. Com a restruturação da dívida teríamos conseguido ficar com uma taxa de juros na ordem de 1,75, o que representaria uma poupança de cerca de 400 mil euros em juros por ano que poderiam ser investidos em projetos para desenvolvimento do concelho.

E o que aconteceu?

Infelizmente a Assembleia Municipal chumbou o FAME. Esta foi uma luta que tivemos durante três anos, mas que falhou. Por isso, já temos por parte da Direção Geral das Autarquias Locais (DGAL) a retenção que era em princípio de 20 por cento da verba que nós recebemos mensalmente, mas que conseguimos reduzir para dez por cento depois de muitas reuniões com o secretário de Estado e com o banco. Esta negociação representa cerca de 30 mil euros de retenção. Face a isto é percetível que temos vivido tempos muito difíceis, mas apesar do rigor do mandato, não é o suficiente para alterar o panorama financeiro. A restruturação da dívida era a estratégia acertada, mas a Assembleia Municipal não permitiu isso.

Tendo em conta todos estes constrangimentos foi possível fazer alguma coisa?

Tivemos um grande constrangimento que foi o Portugal 2020 pelo facto de ter havido um grande atraso nos avisos, tendo só agora começado a abrir. No entanto, apostámos na modernização administrativa dos nossos serviços. Apresentámos também uma candidatura para a requalificação do cineteatro em auditório que está a decorrer o concurso e esperamos iniciar a obra ainda este ano. Fizemos pequenos trabalhos, o jardim foi arranjado na aldeia da Luz, colocámos equipamentos de exterior em Mourão e na Granja. Alguma sobras que poderíamos fazer, só mesmo obras que fossem comparticipadas. Também arranjámos um percurso pedestre que está credenciado pelo Turismo de Portugal junto às margens do Alqueva. Portanto, fomos fazendo esses pequenos trabalhos porque sem dinheiro é impossível.

Quais são as marcas da sua gestão à frente do município de Mourão? O saneamento financeiro?

Já existiu em 2009 um saneamento financeiro. Nós agora, o que pretendíamos mesmo fazer era uma renegociação o mais abrangente possível, para que o saneamento financeiro e o PAEL ficassem também abrangidos pelo FAME com taxas de juros mais baixas. Mesmo em relação ao PAEL temos algumas obrigações que com o FAME poderiam desaparecer, ao longo de dois ou três anos, se estivéssemos a cumprir com o exigido. Por exemplo, os IMI’s poderiam baixar, uma vez que temos as taxas máximas, os valores das águas igualmente e, assim, temos que estar nesta situação até o PAEL durar que são mais 17 ou 18 anos. A acrescentar a tudo isto, não temos o orçamento aprovado para este ano. Com tudo isto é muito complicado.

“Continuamos a aguardar os impactos de Alqueva na economia local”

Não obstante, este é um território com potencialidades. Qual é o impacto de Alqueva?

Com Alqueva ainda estamos a aguardar, a nível de turismo, que apareçam investimentos porque ficámos com um terço do concelho submerso e ficámos sem o maior empregador do concelho. Na altura houve a promessa de ser feita uma nova fábrica e a Câmara até investiu numa estrada até esse equipamento que efetivamente foi feito, mas que esteve aberto apenas cinco anos. Mas, apesar de tudo, temos potencialidades ao nível do turismo. Iniciou-se há cerca de dois meses um projeto turístico de quatro estrelas que disponibiliza 56 camas, que foi financiado por fundos comunitários e sobre o qual temos algumas expetativas, mas queremos que apreçam mais. Nós, cada vez mais, sentimos que as pessoas procuram o nosso território porque temos boa gastronomia, as paisagens e o cante alentejano.

Mas voltemos à barragem de Alqueva. Que impacto tem tido na economia local?

Temos rega na nova aldeia da Luz, onde foi plantada vinha. Estamos há alguns meses em contacto cm o Governo e, no próximo dia 8 de maio, a Câmara e os agricultores vamos ter uma reunião com alguém do Ministério da Agricultura. São sobretudo os agricultores das freguesias de Mourão e de Granja que vão estar presentes para demonstrarmos o interesse na expansão do perímetro de rega, até porque há já muitos que estão a assumir o transporte da água até às suas produções.

O facto de o concelho estar perto da fronteira traz algumas vantagens?

As chaminés mouriscas, o nosso castelo com o formato de estrelas, com as lindas vistas para Alqueva de onde se avistam as terras de Espanha. Ou seja, nós sentimos que as pessoas visitam-nos cada vez mais. Temos boa gastronomia e o cante alentejano. Nós notamos que nos nossos restaurantes há muitos espanhóis e durante a Semana Santa tivemos uma exposição na Igreja da Misericórdia, onde o registo dos visitantes mostrou houve muitos visitantes, sendo que a maioria é espanhola.

A pergunta da praxe. Vai recandidatar-se?

Quando a restruturação da dívida e o orçamento foram chumbados fiquei um bocado desmotivada porque andar-se a trabalhar, durante três anos, para se atingir um objetivo e de repente vir tudo por terra é muito complicado. No entanto, tenho estado a ponderar e com os apoios que tenho tido vou anunciar que me vou recandidatar. Espero que desta vez consigamos ter maioria na Assembleia Municipal para que o que está a acontecer este ano não volte a repetir-se.

Como perspetiva o futuro de Mourão?

Sou uma pessoa otimista e havemos e conseguir ultrapassar as dificuldades que temos presentemente. Estão a surgir alguns investidores no concelho. Temos toda uma envolvente que cativa os empresários. A zona industrial não tem paticamente nada construído, embora os terrenos estejam vendidos, só que a crise começou e as pessoas acabaram por não avançar. Temos recebido empresários que temos ajudado a encontrar terrenos no concelho para aqui se localizarem. No ano passado abriu um Centro de Inspeções de Veículos e embora não existisse terreno para vendermos, demos a indicação de pessoas que tinham terrenos e o investidor negociou e é um negócio que está a superar as expetativas. Temos também duas empresa de ervas aromáticas, na freguesia da Luz, que com a rega têm vindo a crescer, e que agora estão a juntar-se cooperativa com outras empresas a nível do distrito e que há fortes probabilidades dessa cooperativa ficar com a sede em Mourão.

Qual é a mensagem que deixa aos munícipes?

Perante tudo isto, peço que confiem em mim, uma vez mais, porque fui sempre uma pessoa responsável e rigorosa na gestão, penso que correspondi às expetativas de todos os que votaram em mim e de outros que não votaram, mas que reconhecem o trabalho efetuado face a todos os constrangimentos. Há pessoas que se têm dirigido a mim e que mesmo sendo de outro partido dizem que não se reveem naquelas decisões tomadas na Assembleia Municipal porque o que se está a fazer é politiquice. Não se está a querer ajudar o concelho. É uma política feita de terra queimada que não ajuda em nada. Eu até costumo dizer que se eu não ganhar as eleições e se o PSD ganhar, pelo menos chegaria à Câmara e tinha a casa arrumada.

 

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