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Arqueólogo Manuel Calado dá nota máxima às gravuras do Guadiana

“Arte rupestre encontrada na Ajuda é lindíssima”

Cinco gravuras que os arqueólogos e historiadores garantem ser arte rupestre foram descobertas nas margens do rio Guadiana, próximo da Ponte da Ajuda, em Elvas, após a descida das águas provocada pela seca. O achado vai ser analisado pela Direção Regional de Cultura do Alentejo. Em entrevista ao Diário do Sul, o arqueólogo Manuel Calado, que já visitou o sítio - e que em 2000 participou na identificação de arte rupestre mais a sul do Guadiana – garante que as gravuras são pré-históricas e que vão potenciar

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção Diário do SUL

20 Fevereiro 2018

Como define estas gravuras?

As gravuras da Ajuda são o que restam de um conjunto mais vasto que não está acessível ao longo do rio Guadiana, mas que já temos registado. Em termos de pré-história do Alentejo e do País, trata-se certamente de um tema de primeira grandeza, porque a arte rupestre não passa por ser só a arte. Qualquer artista e qualquer historiador de arte, obviamente, se interessa pela forma como começámos a fazer estas coisas. É também a questão da escrita, porque isto, no fundo, são os antepassados diretos da escrita. Foi esta experiência que a humanidade fez para comunicar deixando a memória.

Ou seja, acredita-se que quem fez as gravuras foi a pensar que passados milhares de anos alguém as iria ver?

Sim, o propósito foi esse. É uma espécie de mensagem que ficou gravada, para quem viesse, em termos de memória cultural. A arte rupestre encontrada na Ajuda é lindíssima, são gravuras que vale a pena desfrutar, pensar um bocadinho e depois usar em termos turísticos.

Do que já viu, estas gravuras têm potencial turístico para a região?

Forte potencial, claro, tal como acontece com o megalítico aqui na região. São peças fundamentais, porque são visíveis. Isto é, são diferentes de uma ruína em que só o arqueólogo é que consegue construir mentalmente o que lá estava. Estes vestígios estão tal e qual como foram feitos, não houve alteração com a passagem do tempo, apesar das enxurradas do Guadiana que lhe passaram por cima durante milénios. Já as outras gravuras que documentámos mais para sul do Guadiana estão debaixo de água da barragem de Alqueva sujeitas à sedimentação. Dentro de uns anos poderão estar cobertas por 40 metros de sedimentos.

Aqui as gravuras estão perto da cota 152 da barragem, ou seja próximo da cota máxima. Como é que ainda não tinham sido encontradas?

Do registo que se fez em 2000 foram identificadas algumas gravuras aqui na área específica da Ponte da Ajuda, que é o limite de Alqueva. Estas não tinham sido localizadas, se calhar, porque poderiam ter sedimentos por cima. A verdade é que esta área da Ajuda não foi considerada prioritária no levantamento que se fez em 2000, porque estávamos numa operação de emergência de salvamento e o que interessava era registar aquelas que iam deixar de estar acessíveis. Sobre as da Ajuda nunca se presumiu isso, porque sabíamos que em anos de seca iriam estar todas disponíveis. Aliás, mesmo em anos de cheias, na cota 152, algumas gravuras estavam de fora. Logo, estas gravuras nunca foram uma preocupação comparando com o resto da barragem.

Mas estas podem correr algum risco?

Não. Este é o limite montante da barragem onde os sedimentos nunca se vão depositar. A não ser que haja atividades modernas, como máquinas a passar aqui. Diria que elas estão conservadas.

E será prudente pedir já algum tipo de protecção especial?

Elas estão protegidas legalmente, tal como estão todos os sítios arqueológicos. Quanto a uma proteção mais especial, tipo fechar o espaço às visitas, isso será mais complicado, até porque nunca uma área enorme onde há gravuras se vai fechar. O que se fez em algumas partes do mundo foram parques. É uma avaliação a fazer depois de rever outra vez o que sobrou.

A principal gravura das cinco até agora encontradas na Ajuda mostra um serpenteado. Sabe o que pode significar?

Sabemos que os símbolos que eles gravaram não eram aleatórios e tinham um significado. Este até dá bastante trabalho. Depois, olhando para o conjunto de arte rupestre, verificamos que eles tinham um número bastante limitado dos símbolos que gravavam com significados importantes. A serpente, em si, era um animal que teve alguma importância nos povos primitivos. Mas, ao mesmo tempo, a serpente representa o rio, quando dizemos que o rio serpenteia, ou a estrada, mas também a linha do horizonte ou as ondas. Nós temos na nossa cabeça as metáforas que estão por detrás daquilo a que chamamos a polissemia dos símbolos. Os símbolos pré-históricos não tinham só um significado direto, tinham vários e a serpentiforme é um excelente significado para esta ideia.

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