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Presidente da Associação Além Guadiana, Joaquín Fuentes

Afeto cultural e oportunidade de emprego levam oliventinos à dupla nacionalidade

Cerca de 800 oliventinos conseguiram garantir a nacionalidade portuguesa nos últimos três anos. O último grupo recebeu agora o Cartão de Cidadão. Além da afetividade com Portugal, os moradores de Olivença entre os 5 e os 90 anos têm aqui uma oportunidade singular de abrirem portas no mercado de trabalho em ramos como o ensino ou serviços de saúde. Em entrevista ao Diário do Sul, o presidente da Associação Além Guadiana, Joaquín Fuentes, avança que até já há oliventinos que residem noutras zonas de Espanha i

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redação

05 Março 2018

Mais cem oliventinos com dupla nacionalidade reforçam o interesse da população de Olivença em Portugal. Que fenómeno é este que percorre estes últimos anos?

Nos últimos anos, penso eu, Olivença passou a viver uma espécie de descoberta das suas próprias origens. Não podemos esquecer que Olivença tem já mais de sete séculos de história, dos quais cinco séculos foi portuguesa e nos últimos dois séculos foi espanhola. Isto fez de Olivença uma espécie de ponto de encontro de duas culturas, da espanhola e da portuguesa. E isso dá-nos uma marca especial no contexto da Península Ibérica, onde há uma história partilhada. Nenhuma parte da história pode ser esquecida.

Mas esta adesão à dupla nacionalidade era previsível há uns anos?

As pessoas olham para isto de uma maneira construtiva. Na nossa associação gostamos mais de falar de identidade que da própria nacionalidade, porque nos parece que o mais importante, além das fronteiras e das questões administrativas, estão as pessoas e as culturas. E não há dúvida que em Olivença o património monumental é todo português. A pegada portuguesa aparece na toponímia, nas lendas, nas tradições, na música ou na dança. Está praticamente por todo o lado. É este o peso da afetividade ao nível cultural.

São as pessoas que vos procuram para pediram a dupla nacionalidade ou a associação faz alguma promoção junto dos habitantes?

A associação vai fazer agora dez anos, temos trabalhado sempre na área cultural, na área da música, literatura e na promoção da língua portuguesa. Penso que nesse processo de dez anos de trabalho com a nossa herança portuguesa houve uma importante mudança de mentalidade. Não podemos esquecer que há sempre preconceitos e muitos tabus que nós contribuímos para desfazer. Nesse processo a mentalidade mudou muito e foram os oliventinos e seus descendentes que há anos nos pediram para vermos se esta situação era possível de levar a efeito.

É como uma espécie de chamamento das raízes na tal questão identitária de que falou atrás?

Penso que sim e julgo que a sociedade civil em geral já tem essa visão mais aberta, mais comprometida e está muita mais sensibilizada. Isto acaba por ser iniciativa das pessoas e nós avançámos para as ajudar desde há cerca de sete ou oito anos  quando nos pediram essa informação. Foi um longo caminho para que os primeiros oliventinos conseguissem a nacionalidade portuguesa e houve uma série de barreiras e dificuldades que tivemos de superar para conseguirmos ajudar as pessoas. Ou seja, a dupla nacionalidade não é um processo impulsionado pela nossa associação, mas somos nós que prestamos essa ajuda.

Ter o Cartão de Cidadão português para os oliventinos dá ainda vantagens para o dia o dia, por exemplo para efeitos de emprego do lado e Portugal. Quem adere também procura essa oportunidade?

Cada oliventino dá um valor diferente à nacionalidade portuguesa. Alguns dão mais valor à questão cultural, mas, sobretudo, as gerações mais jovens, que têm uma visão mais prática do processo, encaram isto com a possibilidade de acesso ao mundo educativo e laboral, não só em Portugal, mas também no mundo lusófono.

Este dado, à partida, torna ainda mais interessante a dupla nacionalidade?

Sim, porque já não são apenas os oliventinos que residem em Olivença que estão a pedir dupla nacionalidade, mas também oliventinos que moram na diáspora, como é o exemplo de Barcelona, Madrid ou no País Basco. São muitos oliventinos que emigraram nos anos 60 e 70 e que também têm uma visão aberta e construtiva deste processo.

Pelo meio surge agora uma aposta reforçada do ensino do Português para que as crianças comecem cedo a contactar com o idioma. É mais um passo importante na perspetiva da associação?

Sim, eu penso que até a própria sociedade civil em Olivença está a marcar o ritmo das coisas a este nível, quando já há hoje uma procura elevada do ensino do Português. A nossa associação pediu à Junta da Extremadura a declaração do Português que ainda se fala em Olivença como bem de identidade cultural. O próprio Conselho da Europa recomenda às instituições que procurem preservem as línguas minoritárias. Um dos exemplos disso é o caso do Português que se fala em Olivença. Além disso, foi criada uma comissão, impulsionada pela nossa associação, da qual faz parte a própria autarquia, as escolas primárias e secundárias de Olivença e das aldeias. O objetivo é acrescentar o ensino da língua Portuguesa nas escolas, porque isso é fundamental. Como alguém dizia, a minha Pátria é a minha Língua. E se não temos língua nada faz sentido.

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