Diario do Sul
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Sandra Bento, da organização do congresso que juntou oncologistas em Évora

“Cuidados com alimentação e deixar tabaco na prevenção contra o cancro”

As populações rurais estão em maior risco de virem a ser vítimas de algum tipo de cancro, segundo avança a oncologista Sandra Bento. Alega que o facto do acesso à saúde ser mais difícil nestas zonas também deixa as populações, sobretudo os idosos, mais expostas ao avanço da doença. Daí que a importância dos sinais de alerta contra o cancro tenha sido um dos motes dos Encontros da Primavera que decorreram em Évora.

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção «Diário do SUL»

09 Maio 2018 | Publicado : 10:59 (19/04/2018) | Actualizado: 06:42 (10/05/2018)

Daí que a importância dos sinais de alerta contra o cancro tenha sido um dos motes dos Encontros da Primavera que decorreram em Évora, reunindo a comunidade oncológica para mais uma edição deste que é um dos principais eventos científicos da área. Em entrevista ao Diário do Sul, a médica Sandra Bento, da comissão organizadora dos Encontros, deixou sérios avisos em nome da prevenção e a certeza de que este foi o evento com mais participantes. Superou as mil inscrições.

Este número de participantes traduz o cada vez maior interesse que a oncologia está a despertar na comunidade oncológica? Mesmo para além dos médicos?
Penso que a conclusão pode ser essa. Alcançámos um recorde de participantes, com mais de mil inscritos. Não só médicos oncologistas, de facto, mas também outras especialidades, tentando ser a reunião mais abrangente onde se discutiram os vários tipos de cancro. Ao lado dos oncologistas estiveram também radioterapeutas, cirurgiões, anatomia patológica, enfermeiros, farmacêuticos…


A necessidade de trabalhar em rede…
Sim, porque, na verdade, a oncologia é multidisciplinar e não atuamos sozinhos. É nesse sentido que até foram privilegiadas algumas sessões, como concursos pré-congressos para nutrição, que é um tema transversal a todos os doentes oncológicos. Ainda na parte do concurso pré-congresso, foi abordada a toxicidade da imunoterapia que é agora a grande novidade no tratamento do cancro. Já na área das sessões ocorreram abordagens maioritariamente dedicadas ao cancro da mama, cancro digestivo e depois nas áreas onde tem havido mais avanço.


Procurou fazer-se uma abordagem transversal?
Tentámos ser transversais, trazendo para a discussão o que tem surgido de novo, porque estamos a falar de uma área onde há inovação. Depois também tentámos mostrar o que fazemos, com vários palestrantes que são portugueses e que também nos deram a sua experiência, o que permitiu alargar a discussão para que todos possamos entender um bocadinho melhor os nossos doentes.


Isto surge numa altura em que há notícias de que a incidência do cancro está a aumentar. A que se deve?
Tem sobretudo a ver com o aumento da esperança média de vida. A maior parte dos cancros tem um aumento proporcional ao aumento de idade.


Pode dar um exemplo?
O cancro da mama, em que a partir dos 60 anos para os 80 a 85, que é a esperança média de vida das mulheres em Portugal, quase triplica a incidência. Ou seja, vivemos mais tempos, temos mais risco de estar doentes. Eu também faço parte do risco à família e aconselhamento genético. Na verdade, nós nascemos com células normais e para elas se transformarem em células malignas é necessário que se vão acumulando uma série de erros. Ao vivermos mais tempo possibilitamos que mais erros aconteçam. Quando as pessoas viviam até aos 50 ou 60 anos nem sequer chegavam a ter tempo de estar doentes.


E quantos aos mais jovens?
Também há um aumento de incidência na população mais jovem  que tem sido associada aos comportamentos e estilos de vida menos saudáveis, como alimentação ou tabaco. Eu aqui também  tenho que fazer o papel de promoção da saúde.


Há estudos que apontam as mulheres como estando a fumar mais, com vários prejuízos para a saúde. Confirma?
Isso já está diagnosticado. Posso dizer que para o cancro do pulmão a incidência nos homens tem vindo a diminuir e nas mulheres tem vindo a aumentar.


Daí o recente aproximar da esperança média de vida entre homem e mulher?
Sim, porque, infelizmente, apesar da informação e das campanhas, continua a aumentar o número de mulheres fumadoras. Por isso é que eu fiz questão de dizer aqui que o tabaco aumenta os cancros associados tradicionalmente ao consumo de tabaco entre as vias respiratórias, pulmão e bexiga, mas os fumadores têm ainda uma maior incidência de todos os outros cancros.


Portanto, não fumar compensa?
É uma grande medida de promoção da saúde e de diminuição do risco. É essa a mensagem que tem de passar. Eu acho que todas pessoas sabem. Cuidados com alimentação e deixar tabaco são formas de prevenção contra o cancro.


O Alentejo não escapa à tendência nacional ou tem a situação agravada devido à população mais envelhecida?
É isso mesmo. O Alentejo tem a população envelhecida que muitas vezes chega aos cuidados de saúde tardiamente. Uma parte das pessoas chega tarde por falta de acesso, outra devido ao deixa andar, agravando o problema. Por exemplo, no caso do cancro do colon e do reto, as pessoas chegam a perder sangue durante um ano antes de irem ao médico. Mas também não é concebível que havendo um rastreio ao cancro da mama, pedido pelos médicos de família, nos cheguem senhoras com massas com cinco centímetros.


Tem a ver mais com negação ou com falta de acesso no caso alentejano?
Diria que são as duas situações. No caso do Alentejo é óbvio que o problema das distâncias dificulta mais, porque sabemos que a distância desfavorece o acesso à saúde.

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