Diario do Sul
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Entrevista a José Miguel Mira

Clássicos: Uma paixão que vem de outras gerações

A Top Emotions foi uma iniciativa embrionária que foi crescendo aos poucos e hoje, depois do seu nascimento, é uma das grandes atrações do Alentejo. José Miguel Mira, viu no Alentejo um potencial não só para os clássicos mas também para a região. Numa entrevista ao Diário do sul, José Miguel falou sobre como tudo começou.

Autor :Leonor Centeno

Fonte: Redacção «Diário do SUL»

15 Maio 2018 | Publicado : 14:45 (15/05/2018) | Actualizado: 15:48 (15/05/2018)

Como surgiu o Top Emotions e o porquê?

A história do Top Emotions é um pouco comprida. Eu e o meu pai sempre tivemos vontade de fazer um museu automóvel. No meio da procura tivemos variadissimas propostas das câmaras mas como seria de esperar na época de eleições todos prometem e depois nunca acontece nada. Nós sempre tivemos peças rarissimas e gostávamos de mostrar e partilhar a história com as pessoas. E com isto tudo não conseguimos ir em frente com o museu e, por isso, decidi escrever dois livros sobre a evolução do automóvel e a evolução da mota. Uma das coisas que escrevi no livro e deixo isso bem claro para as pessoas que estão a ler esta entrevista é o seguinte: o conhecimento só nos serve de alguma coisa se soubermos divulgar porque de outra forma, não nos serve de nada. No fundo, dito isto, eu quis mostrar mais porque só os livros não chegavam. É aqui que surge a Top Emotions.

A empresa faz passeios turísticos em carros antigos e teve o seu inicio em Lisboa, mas no inicio foi complicado porque é uma cidade que tem leis que não permitem certos veículos circular na cidade. Não foi fácil porque havia uma série de entraves que depois acabavam por complicar e parecia mal até para os turistas.

 

É a partir daí que decides apostar no Alentejo?

É exatamente com essas complicações que desisti e vim apostar no Alentejo. Penso que vim na altura certa, fiz um bom trabalho. Tive o convite para fazer o mesmo tipo de trabalho em Cascais. Apesar das dificuldades, aqui no Alentejo trabalhei sempre muito bem. É um dos locais que escolhi não só para falar dos automóveis como também para divulgar a região. Rapidamente cheguei ao primeiro lugar no tripadvisor, nas empresas das atividades turisticas.

 

Em que geração começou toda esta coleção de automóveis?

Apesar do meu avô ter tido alguns carros, o forte da coleção começou com o meu pai. O primeiro automóvel da colecção foi um Ford Customline de 55 que pertencia ao meu avô. E lembro-me perfeitamente de uma vez ir a uma feira procurar peças para a minha mota quando vi esse carro à venda. Imediatamente falei com o meu pai e compramos o carro. Foi precisamente a partir daí que começou a loucura, mais do que paixão, pelos automóveis. Depois disso fomos arranjando um atrás de outro e por aí fora.

 

E as motas?

Eu sempre achei as motas mais curiosas porque têm sempre tudo à vista, o motor e outros pormenores. Quando somos novos temos mais tendência para achar piada às motas e foi a partir daí que começou o bichinho por elas. O meu pai não me deixava ter motas, então aos poucos lá fui arranjando uma ou outra, e lancei-me com a coleção. Por isso é que temos estes duas coleções que se completam.

 

Qual foi o teu primeiro carro?

O primeiro da coleção do meu pai foi realmente o Ford mas eu não tenho nenhum automóvel de coleção porque a minha coleção é de motas. Agora o primeiro carro que conduzi foi o Renault 5 da minha mãe, mas o primeiro automóvel meu foi um Fiat Mirafiori 131. Era um antigo carro da policia judiciária que me gastava que era uma coisa bárbara e, ainda por cima, na altura eu não tinha dinheiro nem para beber uma cerveja quanto mais para estar a alimentar um carro que parecia que tinha uma cirrose.  Por isso, despachei o carro e comprei outro. Apesar disso, todos os carros têm uma história e acompanham-nos na vida e este foi um deles.

  

Existe alguma linha comum na aquisição dos clássicos ou tentam variar a coleção ao máximo?

Não existe absolutamente nenhuma linha. Temos uma série de Fords na coleção porque o Ford foi provavelmente o primeiro automóvel produzido em série, como o primeiro Ford T. Depois vieram a serie dos A, muito engraçados e que temos na coleção. E o bichinho do Ford aí ficou, mas também temos Mercedes bastante interessantes na coleção e com algumas peças bastante raras. Os que vieram a seguir foi por complemento como, por exemplo, os Fiat.

 

No meio de tantos clássicos é provável que tenhas tido algumas peripécias. Qual foi a maior de todas?

Tive algumas bem giras! Uma delas foi numa ida a Madrid com o nosso mecânico César, num Ford V8 de 1935. Basicamente fomos mandados parar nove vezes, pela policia, desde a saída perto do Montijo até à fronteira. Em nenhuma delas nos pediram os documentos foi só para ver o automóvel. Foi uma aventura bastante gira e engraçada. Tivemos uma outra também no antigo rally Figueira da Foz/Lisboa onde fomos com um Buick de 1908. Fomos os primeiros a sair às seis da manhã para chegar às oito da noite a Lisboa. Isto tudo a uma velocidade estonteante a cerca de 15 km à hora. O carro como tem acelerador de mão, conseguimos colocar o carro em marcha a andar sozinho. A dada altura numa reta enorme já iamos cansados e resolvemos trocar de lugar, em andamento, mas para isso tivemos que sair fora do carro para poder haver a tal troca. Quando nos apercebemos tinhamos o carro da Guarda Nacional Republicana atrás de nós e tivemos que saltar imediatamente para dentro do carro. A GNR não queria acreditar no que tinha acontecido.

 

As peças para este tipo de automóveis e motas são muito dificeis de arranjar. Como consegues? Tens algum centro particular?

Tenho um mecânico a tempo inteiro que é o César e que trabalha muito bem. Eu costumo dizer que carro parado é carro estragado. Quando não existem peças temos que as mandar fazer recorrendo a bons torneiros e eletrecistas. Este tipo de coisas são sempre delicadas, por vezes, difíceis de ser fazer mas temos que recorrer um pouco à mão de obra especializada. Apesar disso algumas das peças ainda são possíveis encontrar no mercado ou em feiras. O importante é irmos mantendo os carros em bom estado de funcionamento e termos algum cuidado.

 

Tens algumas peças de coleção que não funcionam, por falta de peças?

Por falta de peças não digo mas que estejam para restauro isso sim. Tenho algumas motas a precisar de serem restauradas mas é uma coisa que se tem que fazer aos poucos porque tudo de uma vez só é uma loucura. Já tudo isto é uma loucura, mas é verdade que alguns clássicos estão parados por falta de peças e o restauro está a demorar mais do que o previsto. A nossa previsão era de um ano, mas alguns estão parados há três anos.

 

Agora fora da conversa de carros ou motas, o que gostas de fazer nos tempos livres?

Ui! Além de passear nos carros? É dificil porque agora com o Top Emotions posso dizer que há dois anos que não tiro férias, portanto tempo livre também não os tenho. Tento estar ao máximo com os amigos e familia para aproveitar bem o pouco tempo que me resta.

 

Para além da paixão pelos clássicos que outras paixões tens?

Agora é que não estava à espera. Gosto muito de cozinhar para amigos e de passar um bom tempo com eles. Uma outra coisa que me deu uma paixão mesmo muito grande foi a elaboração dos dois livros que escrevi. Tanto um como outro levaram tempo, cerca de dois anos de pesquisa, mas foram feitos com uma grande paixão. Nunca fui uma pessoa de ler, mas desde que comecei a escrever estes livros perdi-me completamente. Recentemente escrevi uma reportagem para o Diário do Sul sobre o automóvel no Alentejo e o porquê da temática? Porque o primeiro automóvel a circular em Portugal, veio para o Alentejo, foi um Panhard & Levassor, adquirido e importado de Paris por D.Jorge, quarto Conde de Avilez, um jovem aristocrata de Santiago de Cacém, em Setembro de 1895. E o primeiro Rolls Royce veio, também, para o Alentejo, mais propriamente Santiago de Cacém, comprado por Franz Pidwell. Outra das curiosidades interessantes que começou a acontecer aqui no Alentejo quando trouxe a Top Emotions, foi o facto das pessoas começarem a vir ter comigo para falar dos carros que tinham. Isto fez com que as pessoas começassem a tirar os carros para fora para passear neles, daí hoje em dia vermos em Évora mais clássicos. E isso dá-me uma alegria muito grande por saber que as pessoas aproveitam bem.

 Uma coisa que notei é que não gostas de meter tecnologias novas nos clássicos, porquê?

Não, gosto deles o mais originais possíveis. Um carro só pode ter um certificado do Clube Português de Automóveis Antigos (CPAA) ou de outra entidade certificadora estando no seu estado perfeito e original. Não podemos estar a colocar peças de outras épocas deve ser o mais original possível. Por exemplo, quando as pessoas passeiam nos automóveis perguntam-me se existe cinto e eu até respondo a brincar “sim tem que por o cinto das calças”. Se os automóveis da época não tinham cintos, não têm que ter agora. Tenho amigos que às vezes dizem “o meu carro tem uma bateria de seis volts mas aquilo dá uma luz tão fraquinha que decidi por 12 volts”. Para mim isto é das piores coisas que podem fazer. O mesmo se passa quando pintam os carros com cores que nunca existiram na época. Apesar de pensar assim e achar que um carro deve ser sempre original, o gosto varia de pessoa para pessoa.

 

O facto de andar sem cinto não causa problemas com a autoridade?

Não porque o carro vem com certificado próprio, embora já tivessemos tido alguns problemas com a policia mas foi por falta de conhecimento. Só que não é nada que não se resolva, nós apresentamos sempre os certificados e explicamos a situação.

 

Pensas deixar o legado para os filhos?

Eu espero bem que sim. Agora uma das coisas que eu vejo cada vez mais e acho curioso quando faço passeios são crianças a perguntar-me “o que é esta manivela na porta”. Ora, sabemos muito bem que é a manivela para abrir o vidro, mas hoje em dia os miúdos vêm de tal maneira habituados às novas tecnologias que não sabem estas coisas. Estes carros daqui a uns anos vão fazer muita confusão aos jovens porque não sabem para que servem as coisas e vão andar à procura de um computador para tentar perceber como funciona. Mas espero poder deixar os clássicos nas mãos deles se gostarem e quiserem.

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