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João Paulo Garrinhas lança “Elvas, uma Geografia de Fronteira”

Um livro que regressa ao passado para dar pistas sobre futuro da raia

O que tem sido Elvas após a queda das fronteiras? O que se perdeu? O que ficou e pode ou deve ser aproveitado para empurrar a economia? E que o vale o património? E a linha ferroviária? E essa parceria em carteira, mas adiada há vários anos, que dá pelo nome de Eurocidade, entre Elvas, Badajoz e Campo Maior? São algumas das perguntas que encontram respostas no livro que João Paulo Garrinhas lança este sábado na Biblioteca Municipal daquela cidade. “Elvas, uma Geografia de Fronteira”. Eis o título escolhido

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção «Diário do SUL»

06 Julho 2018 | Publicado : 17:41 (06/07/2018) | Actualizado: 17:43 (06/07/2018)

São algumas das perguntas que encontram respostas no livro que João Paulo Garrinhas lança este sábado na Biblioteca Municipal daquela cidade. “Elvas, uma Geografia de Fronteira”. Eis o título escolhido por este professor de 49 anos anos, licenciado em Geografia Humana e Planeamento Regional.

De que livro falamos?
É o resultado de um estudo de dois anos sobre Elvas e a fronteira, porque mostra como a fronteira, ou o desaparecimento dela, condicionou também os últimos quase 30 anos de Elvas. Este estudo resulta do facto de eu ter conhecimento que, do outro lado da fronteira, existiam muitos trabalhos já a decorrer sobre estas problemáticas, centradas em Badajoz.  Foi por mero acaso que quando fui a uma conferência me lembrei de replicar do lado de cá o que ali já estava a ser feito.

Entretanto escreveu vários artigos no Linhas de Elvas e acaba por dar maior dimensão a este projeto. Eram assim tantos os temas e áreas que se perfilavam para estudar?
Comecei por dois ou três artigos informativos e depois pensei em fazer o estudo em várias áreas, desde a população, ao comércio, indústria, desemprego. Tentei fazer o diagnóstico sobre o que existe.

O que destacaria desse diagnóstico
Elvas sofreu profundas transformações, que decorrem do desaparecimento da fronteira, que fez com que se desmantelasse o modelo económico associado ao comércio e presença militar. Isso provocou uma grande regressão na maior parte dos indicadores económicos e sociais no concelho.

Um processo já visto noutras regiões da Europa…
Sim, porque estes territórios passaram a ser, sobretudo, territórios de passagem e não de concentração de investimentos e de atividades. Depois houve outro conjunto de fatores que contribuíram para isso, como a reestruturação do que é administração pública em Portugal e que fez com que desaparecessem muitos postos de trabalho em Elvas. Isso concorreu para que a integração europeia tivesse contribuído para a regressão do concelho.

É legítimo dizer-se que Elvas era um concelho impreparado para a queda das fronteiras?
Isso é notório. O facto de ter havido muitos investimentos em infraestruturas não se traduziu no desenvolvimento do concelho. Isto é um facto importante a destacar, até porque, falando numa perspetiva transfronteiriça, houve duplicação de investimentos dos dois lados da fronteira. Quer em Elvas, quer em Badajoz, embora ali em menor escala, existe uma regressão económica.

Contudo, olhando à distância para Badajoz não se fica com essa ideia. Bem pelo contrário, assiste-se ao crescimento populacional. Como é que isso se compagina?
Estive há dias numa conferência e dizia-se que Badajoz só não perdeu muita população porque entraram muitos emigrantes. Mas entre as pessoas que analisaram a situação a sensação também é de descrença. O crescimento da população deve-se a fatores externos. Além da entrada de emigrantes de países terceiros, Badajoz garante um monopólio em torno da região onde se insere.

E isso tem tradução ao nível da taxa de desemprego, por exemplo?
Há um tempo Badajoz tinha uma taxa de desemprego que ultrapassava largamente os 20% e Elvas estava nos 18. Hoje é diferente, mas isto quer dizer que as políticas que foram desenvolvidas não geraram emprego em ambos os lados da fronteira.

Aos dias de hoje, a proximidade a Badajoz acaba por ser prejudicial a Elvas, em termos económicos, depois de todas as vantagens que a fronteira trouxe no passado?
Na ausência de uma perspetiva de políticas de cooperação transfronteiriça, diria que é. Ou seja, as relações entre Badajoz, com 150 mil habitantes, e Elvas, com 20 mil, são desequilibradas, porque há um monopólio de Badajoz em relação a Elvas.

Falamos de uma forte concorrência que deixa Elvas para trás?
Há uma forte concorrência e há uma coisa que se chama economia de escala, onde eles têm maior dimensão económica e populacional.

Como é que Elvas poderia reduzir estas assimetrias
Eu acredito que só através do desenvolvimento de políticas de cooperação transfronteiriça isso é possível, procurando no contexto da Eurocidade, ou de outras formas de cooperação, articular cooperações de complementaridade entre Elvas, Badajoz e Campo Maior. É preciso definir áreas estratégicas que ajudem a esbater essa situação. Aliás, isto não é novo, a complementaridade também existe em muitos países do centro da Europa através das eurocidades. Cada centro urbano oferece o que tem de melhor.

E como deverá funcionar a Eurocidade para ser efetivamenrte promissora para estes três concelhos?
Não sei. Vai agora ser formalizada essa parte sobre o que será a Eurocidade, o que implica uma análise estratégica. Claro que esse plano vai dizer-nos que não é em todas as áreas de cooperação que podemos atuar, mas penso que só através dessas complementaridades na fronteira vai ser possível gerar economias de escala que contribuam para o desenvolvimento destas regiões. Este tema da Eurocidade faz parte da minha tese de doutoramento e revela que todas as eurocidades que se formaram no centro da Europa só se desenvolveram quando a população e os agentes económicos tiveram conhecimento delas.

Isso é um alerta às instituições de Elvas e Badajoz?
Quer dizer que a cooperação entre as regiões não se faz apenas institucionalmente, mas com muita participação da sociedade civil e dos setores económicos.

Ainda na raia, uma das questões na ordem do dia aborda o efeito da linha ferroviária de alta velocidade. São legítimas as expetativas elevadas da população que esperam quase uma revolução na economia?
As pessoas podem esperar melhorias para a economia, embora seja necessário ter em conta que na maioria dos países do centro da Europa os processos das eurocidades e transformações associadas aos transportes ferroviários e rodoviários levam algum tempo. Na logística tem-se especulado muito na Eurocidade, porque Badajoz fica com a logística e nós também a queríamos.


E com esse processo já avançado do lado espanhol, o que lhe parece que cabe a Elvas?
Eu sou defensor de uma plataforma única transfronteiriça. Obrigatoriamente, a plataforma vai ter que ficar num sítio, mas todos poderão beneficiar dela. Badajoz adiantou-se nesse processo e em questão de ordenamento do território tinha situações mais vantajosas do que o lado português. Tínhamos apenas 40 a 60 hectares e ali foi feita uma estrutura mais ampla. Depois, a logística, em si, não gera muitos empregos, mas penso que será importante o que vai acontecer à volta. Ou seja, mais importante do que estarmos a discutir que queremos a plataforma, mais vale pedirmos uma plataforma logística que possa apoiar os parques industriais de Elvas, Campo Maior e Badajoz. Quem tiver uma indústria em Elvas passa a ter aqui um instrumento de fácil transporte a Sines ou à Europa.

Não há espaço para se falar em duplicação de investimentos?
Duas plataformas logísticas iam fazer concorrência e a União Europeia, em termos de cooperação transfronteiriça, tende a evitar sempre a duplicação, apostando antes na complementaridade, que é o termo que devemos incutir de cara ao futuro.

A classificação de património mundial atribuída a Elvas há seis anos tem valido a pena?
O património é fundamental na Eurocidade, mas há muito para fazer. Tem que haver uma reabilitação integrada do centro histórico, articulada com todos os bairros, que é preciso regenerar. O que se assistiu nos últimos anos em Elvas foi a uma desqualificação urbanística do cento histórico e dos bairros à volta, como Boa Fé e São Pedro. O centro histórico perdeu nos últimos 20 a 30 anos, 30% da população, o que banalizou e desqualificou a função habitacional, que é um recurso fundamental para o turismo. Não se pode transformar o centro histórico de Elvas num bairro social, porque se estão a perder vivências de largos anos. Um centro histórico bem gerido é um fator fundamental.

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