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Diario do Sul

“A Cultura tem Autor”, uma iniciativa do Grupo DS, Visapress e FNAC

Carmen Garcia defende legislação que salvaguarde os direitos de autor nas redes sociais

Na blogosfera, Carmen Garcia é conhecida como “A Mãe Imperfeita”. Foi há pouco mais de um ano que esta enfermeira alentejana, de 32 anos, começou a escrever “para meia dúzia” de amigos num blogue.

Autor :Marina Pardal

Fonte: Redacção «Diário do SUL»

09 Maio 2019 | Publicado : 18:03 (09/05/2019) | Actualizado: 18:10 (09/05/2019)

Neste seu “cantinho”, a autora fala sobre os dois filhos, um de 2 anos e outro de 9 meses, mas também sobre “o outro lado” da maternidade, a par de vários temas de âmbito mais geral.
O blogue tem vindo a crescer e hoje em dia a página de Facebook tem quase 40 mil seguidores. Entretanto, já tem dois livros publicados. Num fala sobre “Os Dez Mandamentos da Mãe Imperfeita”; o outro assenta numa rubrica do blogue, “Os Grupos de Mães no Facebook”, e chama-se “A Mãe Imperfeita Responde”.
Com este seu protejo nas redes sociais, a autora tem desencadeado algumas campanhas no âmbito da solidariedade, nomeadamente uma que visou angariar dinheiro para equipar a sala de espera da nova urgência pediátrica do Hospital do Espírito Santo de Évora.
Carmen Garcia foi a convidada de maio da iniciativa “A Cultura tem Autor”, um projeto promovido pelo Grupo Diário do Sul, em conjunto com a Visapress e a FNAC.
É precisamente a FNAC de Évora que acolhe esta iniciativa, que tem lugar na primeira quinta-feira de cada mês, pelas 18 horas.
O objetivo é promover programas e eventos culturais, nos quais as temáticas ligadas aos direitos de autor e à propriedade intelectual assumem o protagonismo.
Nesta entrevista com “A Mãe Imperfeita”, ganhou especial destaque a questão dos direitos de autor nas redes sociais, sendo feita ainda uma comparação com aquilo que acontece ao nível dos livros.
Para início de conversa, ficámos a conhecer como começou esta “aventura” de Carmen Garcia pelo mundo dos blogues.
“Eu estava grávida do meu segundo filho e era uma gravidez de risco, por isso estava em casa em repouso e passava muito tempo nas redes sociais porque não podia fazer praticamente nada, e as redes sociais eram de certa forma uma companhia”, recordou a autora.
Admitiu que “um dia percebi que estava francamente aborrecida de ver tanta mãe perfeita, tanta teoria e tudo aquilo que eu via só me fazia sentir culpada”, lembrando que “já tinha outro filho com 1 ano, na altura, e eu não era aquela mãe que as redes sociais mostravam”.
Segundo Carmen Garcia, “cada imagem daquelas tem um trabalho de produção por trás, aquelas não são vidas de famílias reais e eu achei que fazia falta que uma mãe verdadeira, daquelas que se zangam e cujos filhos têm nódoas na roupa, mostrasse ‘o outro lado’ da maternidade e, por isso, decidi criar o blogue”.
Acrescentou que “eu nunca divulguei a página de Facebook associada ao blogue, o número de seguidores foi crescendo porque as pessoas foram partilhando conteúdo e hoje somos perto de 40 mil”, constatando que “temos de perceber que estamos a falar para um nicho muito específico, que são as mães”.
Um dos aspetos que caracteriza o blogue é o seu quase total afastamento da publicidade. “Não aceito que seja uma empresa a escrever o texto que vai aparecer no blogue, nem que haja publicidade encapotada”, confessou, garantindo que “já aceitei fazer publicidade a um produto, mas porque tive total liberdade para escrever sobre ele”.
Em relação ao tema central desta conversa, os direitos de autor, Carmen Garcia contou alguns episódios que já lhe aconteceram na blogosfera.
“Um texto que eu escrevi sobre os anos 80 foi bastante partilhado e tornou-se vital”, referiu, destacando que “na minha página consegui ver que teve um alcance de três milhões de pessoas e teve mais de 300 mil partilhas”.
A blogger sublinhou que “uma coisa desta escala foge sempre do alcance de quem escreveu, mas custou-me muito que me aparecesse o meu texto assinado com o nome de outra pessoa e mais ainda que o texto fosse adulterado, em alguns casos”.
Para além disso, “já descobri um blogue com dois ou três meses de existência, mas com mais de mil seguidores, no qual todos os textos que lá estavam eram textos meus, do princípio do meu blogue, mas assinados pela outra pessoa”, frisou.
Carmen Garcia assegurou que “pensei agir judicialmente contra aquela pessoa porque havia algum conteúdo que estava protegido, pois era do meu livro, mas o processo judicial tem custos e iria ser desgastante”.
Focou que “a rapariga apagou tudo e ficou por aí, mas tenho pensado que vou ter de me proteger de outra forma e já falei com a minha editora nesse sentido”.
Atualmente, a autora tem “em mãos” mais um projeto que pode ser conhecido no blogue “A Anos Luz” e que assenta na publicação online, capítulo a capítulo, de um romance ligado ao mundo do fantástico.
Carmen Garcia evidenciou que “tem havido uma resposta muito positiva, mas não tinha como assegurar os direitos de autor”.
Desta forma, “decidi, em conjunto com a minha editora, que vou continuar a escrever até um ponto em que faça sentido parar, mas sem revelar nada do final da história, e a última parte vai sair num livro lá para o final de novembro”.
Na sua opinião, “as pessoas ainda não entenderam que há objetivamente direitos de autor no mundo das redes sociais”, reforçando que “há muita gente que eu acredito piamente que pense que as coisas aparecem por geração espontânea nas páginas de Facebook ou de Instagram, sem terem vindo da cabeça de ninguém”.
Para a blogger, “as redes sociais continuam a ser um pouco ‘terra de ninguém’, em relação aos direitos de autor, pois ninguém é responsabilizado, pelo que estamos num vazio e não tal pode ser”.
Na sua perspetiva, “as pessoas têm de perceber que os conteúdos da internet podem e devem ser partilhados, é para isso que o botão de partilhar lá está, mas copiar e colar alguma coisa de que gostaram, assumindo-se elas próprias como autoras ou não referenciando o autor inicial é um crime, é apropriação de propriedade intelectual”.
Apelou que “precisamos urgentemente de começar a responsabilizar as pessoas por esse tipo de situação”.
Nesse âmbito, Carmen Garcia assumiu que “gostava muito que alguém olhasse para esta questão a sério porque sabemos que o futuro passa pela internet e pelas redes sociais e era importante que se fizesse alguma coisa neste sentido”.
Relativamente ao livro em papel, a autora julga que já há outra postura. “Num livro publicado é mais fácil assegurar os direitos de autor”, realçou, considerando que, “culturalmente, as pessoas estão mais preparadas para não copiar de um livro e, por isso, têm mais receio de o fazer”.
A autora reforçou que “as redes sociais são o ‘faroeste’, não sei se é por mal ou por questões culturais ou se há mesmo pessoas que não sabem, é como se as coisas não tivessem dono”, admitindo que “a mim custa-me muito que as coisas que saem desta cabeça de mãe cansada sejam assinadas com nomes de outras pessoas”.
Disse ainda que “quem faz isso é desonesto, se me perguntar se é propositadamente desonesto, eu não sei, com os livros, eu acho que as pessoas já perceberam que podem ter problemas em termos legais, portanto, ficam um pouco mais contidas”.
Quanto a possíveis soluções, Carmen Garcia apontou que “devemos apostar na educação das pessoas e na consciencialização de que isto é errado”, exemplificando com “a realização de campanhas, inclusive por parte do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação”.
A par disso, “é necessário que se encare que a cultura tem de ser remunerada e que as pessoas não achem estranho que tenhamos de pagar pela cultura”, concluiu.

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