Diario do Sul

Associativismo

Plano de xadrez e memória A.Xat - Montemor-o-Novo

No passado mês de julho quando demos ao leitor a notícia de que a A.XAT – Associação de Xadrez “A Torre” sediada em Montemor-o-Novo tinha sido campeã nacional de Xadrez (também vencedora da Taça de Portugal, fez a dobradinha), prometemos voltar para ver o seu Projeto de Xadrez Pedagógico. Pois bem, para nós as promessas são para cumprir.

Autor :Paulo Figueira

04 Outubro 2019 | Publicado : 18:20 (04/10/2019) | Actualizado: 18:21 (04/10/2019)

Fomos então até Montemor-o-Novo onde fomos bem recebidos por Luís Nuno Barrigoto, Presidente da Associação de Xadrez “A Torre”, também conhecida por A.XAT -Montemor-o-Novo, Psicólogo Especialista em Psicologia da Educação; Psicologia Clínica e da Saúde; Necessidades Educativas Especiais; Psicogerontologia; Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira, com formação especializada em Xadrez Terapêutico para Crianças com Perturbações do Espectro do Autismo (PEA), incluindo Síndrome de Asperger, Perturbações de Hiperatividade / Défice de Atenção (PHDA), Treino e Reabilitação Cognitiva com base no Xadrez e Xadrez Terapêutico para Intervenção com Idosos. Desde 2015 que desenvolve a sua atividade profissional, como psicólogo, no Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo parte importante do Plano de Xadrez e Memória desenvolvido pela A.XAT.  Enquanto nos dirigíamos para uma sessão do plano, Luís Nuno Barrigoto foi contando como tudo começou:

“O Projecto tem inicio em 2015 quando se criou a A.XAT. Começou com três amigos, sendo um deles jogador de xadrez desde os oito anos, que posteriormente veio estudar para Évora acabando por se estabelecer aí profissionalmente. Uma vez cá começou a jogar xadrez no Grupo Desportivo Diana em Évora onde esteve vários anos, transferindo-se depois para o Sporting Clube de Portugal. Em 2014 desafiou-nos para criar um clube de Xadrez.  Numa primeira fase foi uma questão que não me apaixonou no imediato, pois apesar de saber jogar xadrez, considerava não dispor do tempo necessário para o clube. Entretanto, esta pessoa, o José Miguel Ribeiro convida-nos a visitar um clube espanhol sediado em Mérida, o Magic da Extremadura, para nós conhecermos o seu projecto. Fiquei fascinado pois eles trabalham o xadrez na sua função social e terapêutica tendo projectos em diversas áreas para diversos públicos e utilizam neles a minha área, a psicologia. E foi isso que me aliciou e ainda estávamos em Mérida e já eu tinha dito: É isto que eu quero.”

Chegamos então à biblioteca onde começam a ser montados os tabuleiros em cima das mesas e Luís Nuno Barrigoto aproveita para nos contar um pouco como chegaram até aqui:

“Passados cerca de dois anos desde a nossa fundação, e já depois de termos sido campeões nacionais da terceira divisão na nossa época de estreia, a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo convida-nos a apresentar um projeto inserido numa candidatura a fundos europeus para combate ao insucesso escolar, projectos esses que foram implementados um pouco por todo o país onde as candidaturas teriam de ser feitas pelos municípios. Somos então convidados a apresentar um projecto que pudesse ajudar na questão do combate ao insucesso escolar, neste caso em parceria com o agrupamento de escolas de Montemor-o-Novo, tendo nós apresentado uma versão inicial que logicamente, entretanto sofreu algumas alterações. Começámos a aplicar o projecto no ano lectivo 2018-2019 onde temos várias vertentes, a primeira vertente foi a de ajudar a escola numa cultura do xadrez, a criar um clube de xadrez escolar onde os miúdos possam aprender e desenvolver enquanto praticantes da modalidade, uma modalidade que infelizmente na região praticamente não existe a nível escolar. Não encontrámos muitas pessoas em Montemor-o-Novo que soubessem jogar, e as que sabem já tem alguma idade e portanto a primeira fase mesmo de implementação da equipa não foi fácil.  Em Portugal infelizmente não é uma modalidade que esteja muito desenvolvida, existem países onde ela está incluída nas escolas nos horários letivos, onde todos os alunos têm 45 minutos, uma hora por semana de xadrez. No nosso país infelizmente isso não acontece, mas tenho esperança que daqui a uns anos isso venha a acontecer.

Tem uma segunda vertente que será conseguirmos elevar o nível dos nossos jogadores através de treinos dados por treinadores credenciados, alguns deles jogadores da nossa equipa de competição.

Iremos ter sessões e Workshop´s ao longo do ano, dinamizadas por jogadores da equipa de competição e por treinadores contratados por nós, de referir que na nossa região não existem treinadores credenciados ou outros técnicos que possam ajudar a elevar a qualidade dos nossos alunos, daí a única opção ser recorrer a pessoas fora do distrito ligadas ao Xadrez Nacional.

Temos a terceira vertente que é a parte inovadora do projecto que consiste em utilizar o xadrez como ferramenta terapêutica no trabalho com crianças com algumas especificidades, nomeadamente Necessidades Educativas Especiais. Por exemplo eu utilizo o xadrez como ferramenta terapêutica para trabalhar crianças com Perturbações do Espectro do Autismo, incluindo Síndrome de Asperger. O objetivo deste trabalho, não é colocá-los a jogar xadrez de competição, nada disso, o projecto consiste em através do Xadrez melhorar a relação deles com os outros, trabalhar as questões sociais e familiares, quebrar as suas rotinas, os seus medos, sendo que a nível de metodologia consoante o tipo de criança pode ser trabalhado individualmente ou em grupo. Trabalhamos também crianças com Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção, visto o xadrez ajudar e muito nestas matérias, assim como a tomada de decisão, o pensamento critico, a lógica, etc.”

Entretanto começam a chegar os utentes do projeto, as crianças, alunos do segundo e terceiro ciclo, isto é, crianças que frequentam do 5º ao 9º ano de escolaridade.  E Luís Nuno Barrigoto continua:

“Começámos estas duas últimas fases no ano lectivo passado, muitas das crianças envolvidas no projectos são crianças que não terão à partida este tipo de características e mesmo estes mais tarde poderemos vir a federar e levar a torneios fora aqui do nosso concelho.

Também iremos organizar torneios de xadrez dentro do meio escolar para eles perceberem qual a dinâmica de um torneio de xadrez e de alguma forma prepará-los para o mundo da competição.”

Terminada a primeira partida aproveitámos para falar com um dos alunos, o Tiago, de 10 anos, que nos explicou que começou a aprender xadrez com 6 anos na A.XAT e que continuou a praticar na escola através das Atividades de Enriquecimento Curricular, e agora na Escola S. João de Deus, vai ter ao Clube Escolar para jogar com outros colegas, em casa vai jogando com a irmã e o pai, já consegue ensinar a prima de 7 anos.  Para além do futebol, o xadrez é a sua paixão e ajuda-o a ter mais atenção e concentração no seu dia a dia.

Terminada a sessão e já no gabinete de Luís Nuno Barrigoto a saborear um café quisemos aprofundar um pouco mais algumas questões:

Como surgiu o convite da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo?

Quando criámos o clube tivemos várias reuniões com várias entidades entre elas a Câmara Municipal, onde apresentámos os projetos que queríamos desenvolver para além da competição. Nessa altura, em 2015, nós também para percebermos que tipo de apoios poderíamos receber da autarquia explanámos tudo aquilo que poderíamos fazer quer na área educativa, quer na área social ao nível do potencial que o xadrez permite fazer. Explicámos que temos projectos que podem ser utilizados em crianças em jardins-de-infância, em crianças de primeiro, segundo e terceiro ciclo, que podem ser desenvolvidos em pessoas mais idosas, como por exemplo o projeto que estamos a desenvolver em parceria com a Universidade Sénior de Évora com a qual fazemos algumas iniciativas. Passados dois anos apareceram estes programas de combate ao insucesso escolar com financiamento de fundos europeus, e a autarquia lembrou-se que uma das ferramentas que poderia ser utilizada era o xadrez e contactou-nos.

 Como está o clube de xadrez escolar?

O Clube de xadrez funciona nas duas bibliotecas do agrupamento, tem horários de segunda a sexta-feira e é dinamizado por mim e outros dois professores do agrupamento que se disponibilizaram para ajudar e também para se inteirarem da metodologia. O projecto vai terminar em junho de 2020 e se a escola quiser continuar com o clube já não seremos nós, A.XAT, mas sim os professores do próprio agrupamento a dar continuidade.

E a cultura de xadrez. Que balanço faz dela?

A cultura de xadrez que quisemos criar está no início. É uma modalidade que quem não a conhece pensa ser uma modalidade muito difícil de aprender. Por vezes oiço: “isso é só para pessoas muito inteligentes” mas isso é mentira. Qualquer pessoa com qualquer idade e nível escolar consegue aprender as regras básicas do jogo, embora como é óbvio quanto mais jogar mais evoluirá.

Por exemplo nós começámos em 2016 nas actividades extracurriculares a ensinar xadrez a crianças do primeiro ciclo e hoje todas jogam já muito melhor do que jogavam há uns anos atrás. Hoje quando organizamos um torneio já aparecem muitas crianças, principalmente pela mão dos pais que os levam e ficam lá enquanto decorre. Já o primeiro torneio que fizemos tinha apenas dois miúdos, os que começámos a ensinar, o segundo torneio já eram quatro e hoje em média conseguimos entre 15 a vinte crianças que vêem jogar. Ainda não estão num patamar de competição muito elevado, mas um jogador de xadrez demora muito tempo a formar. Tem sido um trabalho passo a passo.

No caso das crianças com necessidades educativas especiais posso dar o exemplo, o caso de um miúdo autista que já consegue sair de casa, ir jogar um torneio, confraternizar com os colegas e adultos, quando à alguns meses atrás não saía de casa, não socializava com os colegas da turma, Segundo os pais o nosso trabalho tem sido notável e eles próprios referem as diferenças, hoje sai de casa sozinho e já não segue as “tais rotinas rígidas”, agora reage muito melhor aos imprevistos do dia a dia.

 

Trabalham com quantas crianças com necessidades educativas especiais?

Cerca de trinta com idades entre os 10 e 16 anos. É importante esclarecer os leitores que escolhemos trabalhar estas idades, tendo em conta que as maiores taxas de insucesso escolar incidem no 2º e 3º Ciclos, e seriam estas as idades onde poderíamos contribuir de uma forma mais positiva no Combate ao Insucesso Escolar.

Considera que o facto de serem uma equipa com sucesso a nível federado ajuda a captar apoios e pessoas para a prática da modalidade?

Talvez, por um lado reunimos um conjunto de bons jogadores nacionais, aos quais acrescentámos alguns jogadores espanhóis fruto da parceria que estabelecemos com o Magic Extremadura de Mérida. Temos um grupo fantástico, onde a amizade e o gosto pelo Xadrez é evidente e é o que nos torna um clube único. Temos cada vez mais crianças de Montemor-o-Novo e inclusive algumas de fora do concelho.

Os apoios ainda não são aqueles que gostaríamos de ter, estamos situados numa região com algumas especificidades, somos a única equipa do interior e do sul do país a competir na 1ª Divisão Nacional, o concelho nunca teve uma aposta nesta modalidade, como por exemplo têm à muitos anos Almada, Seixal, Loures, Lisboa, Coimbra, Porto ou como Évora chegou a ter no tempo em que os Dianas tinham xadrez.  A modalidade não é ainda visível à semelhança de outras modalidades, no entanto, as nossas conquistas são um bom exemplo para todos… É possível conquistar títulos nacionais apesar de sermos uma das poucas equipas no interior do país com duas equipas de competição. Temos logicamente limitações orçamentais, por exemplo, pensámos em participar na “Liga dos Campeões”, depois de vencermos a 1ª Divisão Nacional, que se disputa em Montenegro em novembro, mas desistimos da ideia, ainda não temos os apoios financeiros necessários para tal, quem sabe um dia…

Quais são os vossos parceiros?

Além dos já referidos, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, o Agrupamento de Escolas de Montemor e a Universidade Sénior de Évora, temos um parceiro financeiro que é uma empresa de Ponte de Sor, o grupo Incopil, detentora da Pimensor e da marca “Flor das Hortas”, que produz molhos e temperos. Temos uma parceira com a União de Freguesias de Vila Bispo e Silveiras, que para além do apoio financeiro ao Movimento Associativo,  nos permite, como nós não temos sede, utilizarmos a Casa das Associações para dar as aulas aos sábados de manhã. Aulas essas para pessoas fora do projeto escolar e onde temos inclusivamente crianças que não são do concelho de Montemor, mas dos concelhos vizinhos que vem cá ter aulas connosco. Este é um espaço cedido pela União de Freguesias e onde podemos desenvolver a nossa atividade sem os custos inerentes a uma sede.

Temos também uma pareceria com a empresa GCE Negócios, uma empresa de contabilidade e projetos que nos trata desta matéria e nos apoia nas candidaturas. A partir do próximo mês iremos ter uma parceria com a Climor, uma clínica aqui em Montemor-o-Novo onde teremos a oportunidade de desenvolver xadrez terapêutico para crianças que não se inserem dentro do projeto escolar e para outros públicos, visto nos últimos tempos termos sido contactados por inúmeras pessoas fora do concelho. Achámos então a necessidade de poder oferecer este tipo de conhecimentos e ferramentas às famílias de Montemor-o-Novo e outras fora do concelho para elas puderem melhorar um pouco o seu dia-a-dia, o seu relacionamento com crianças com determinadas perturbações. Pouca gente conhece o potencial do xadrez neste tipo de trabalho e esta parceria vai ser uma oportunidade de as pessoas terem contacto com ele e poderem usufruir do potencial que o xadrez apresenta.

O Magic Extremadura de Mérida, Espanha, nosso parceiro desde o início, peça fundamental no nosso trabalho, aqueles que nos tem ensinado o potencial do xadrez enquanto ferramenta nas mais variadas áreas e que permitem a sua utilização em Portugal desses conhecimentos, para além do intercâmbio de jogadores nos Campeonatos Portugueses e Espanhóis.

 

Onde querem estar daqui a dez anos?

Queremos trabalhar outras áreas. Temos projectos para trabalhar a prevenção de Alzheimer, queremos implementar um projecto nessa área que poderá inclusive vir a ser implementado num lar, com alguém da área da saúde, num centro de dia ou numa clínica.

Queremos também implementar projectos na área do Parkinson e alargar o projeto de Xadrez Terapêutico em Perturbações do Espectro do Autismo, incluindo Síndrome de Asperger. Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção, com outras idades, não só aqui no nosso concelho, mas também fora dele. Daqui a dez anos gostava imenso de ter o Alentejo inteiro, e se tivesse levasse o Xadrez como ferramenta terapêutica ao país inteiro seria um sonho concretizado. Em suma, gostava que daqui a dez anos fossemos uma referência nacional na utilização do xadrez para ferramenta de combate ao insucesso escolar, às questões do autismo, défices de atenção, a hiperactividade, o Alzheimer, etc, no fundo a melhorar a vida quotidiana das famílias.

Quanto à parte de competição, lembro-me de me terem feito essa pergunta há quatro anos atrás. O José Ribeiro quando nos desafiou a criar o clube disse-nos que em cinco anos éramos campeões nacionais da 1ª Divisão, sendo que nós não acreditámos pois éramos duas pessoas fora da área do xadrez (eu da psicologia, a outra da área do marketing) e dos três apenas o José Miguel percebia de xadrez. O que é certo é que fomos campeões nacionais da 3ª Divisão, no primeiro ano (2015), Campeões Nacionais de Semi Rápidas no terceiro ano (2018) Campeões Nacionais da 1ª Divisão, em quatro anos (2019), obtendo ainda a cereja em cima do bolo pois fizemos a chamada dobradinha com a vitória também na Taça de Portugal (2019). Juntámo-nos assim ao Grupo Desportivo Dianas de Évora a outra equipa alentejana que também já alcançou a dobradinha no Xadrez Nacional.  

Para o futuro pensamos continuar a competir, embora provavelmente nos iremos centrar mais na questão dos projectos. Quanto à competição gostaríamos de vir a ser campeões europeus, mas já percebemos que é difícil, aliás é muito difícil, mas em termos de competição é o nosso maior sonho, o de trazer para o Alentejo esse título. O Alentejo não tem infelizmente muita tradição de xadrez, existem poucos clubes de xadrez e não existe sequer uma Associação Distrital de Xadrez, tendo nós de estarmos inscritos na Associação Distrital de Setúbal, o que não quer dizer que daqui a uns anos não possamos ajudar a criar a associação distrital. O fundamental é continuarmos a ter uma equipa competitiva, esperamos daqui a dez anos ter jogadores da região com uma qualidade muito superior à actual. Gostaríamos de ter projectos noutras escolas, noutras autarquias, noutros agrupamentos e que pudessem desenvolver este tipo de trabalho, e quem sabe alargar isto a outras zonas do país.

Luís Nuno Barrigoto não nos quis deixar ir embora sem “agradecer ao Diário do Sul a disponibilidade e amabilidade por lembrarem-se que existe no Alentejo um clube que tenta desenvolver uma modalidade não só competitiva, mas também numa vertente social, única no país, e que  o mais importante da Associação de Xadrez “A Torre” é conseguir aliar competição à parte social e educativa. Deixo ainda o convite ao Diário do Sul e a todos os leitores para participarem no nosso próximo torneio a realizar no próximo dia 12 de outubro em Montemor-o-Novo, às 14:30 no auditório da União de Freguesias, inscrições através do email lb@åxat.pt.

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