Diario do Sul
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Investigação arqueológica

O que levava os romanos de Tróia a fazerem banquetes em sepulturas?

Os romanos que há dois mil anos estiveram em Tróia acreditavam que através de banquetes em cima das sepulturas dos familiares mortos, estariam a conviver espiritualmente com eles. A convicção era a de que também os defuntos participavam na refeição, o que lhes permitia “viver melhor no além”, revela a arqueóloga Inês Vaz Pinto. Daí que as refeições na necrópole da basílica paleocristã “fosse

Roberto Dores

30 Abril 2015 | Fonte: Redação D.S.

“São sepulturas únicas em Portugal. Em Espanha também há algumas, mas depois só encontramos no norte de África”, avança Inês Vaz Pinto, directora da equipa de arqueologia do Troiaresort, que está a proceder ao restauro do complexo romano nas margens do rio Sado.

As placas que cobrem as sepulturas são de pedra rectangulares, mas também as há em forma de ferradura, as mais raras, com uma parte central funda, para permitir que os comensais se reclinassem enquanto durava a refeição. “A ceia era algo muito importante e foi um ritual a que os próprios cristãos deram continuidade, mesmo com crenças diferentes. Temos, desde logo, o caso da Última Ceia no cristianismo”, recorda a arqueóloga.

Além de servirem para os banquetes de familiares e amigos do defunto, as mesas fúnebres também seriam usadas para oferendas, entre os séculos IV e V. A investigação concluiu que pelos vários túmulos - que transformaram em cemitério aquele que foi o local de culto do império romano instalado em Tróia desde o século I – estarão os resto mortais de pessoas que terão sido consideradas «santas» pela comunidade da época.

«Era muito normal fazer as igrejas sobre as sepulturas das pessoas que eram veneradas pela população», justifica Inês Vaz Pinto, dando o exemplo da mediática basílica de São Pedro, em Roma, construída no local onde o santo foi sepultado. “Aqui não precisavam de ter santos muito conhecidos. Eles é que os escolhiam. Não houve nenhum célebre, porque não há qualquer lenda em Tróia que aponte nesse sentido”, sublinha.

Algumas sepulturas até estão à vista, mas a maioria está debaixo dos pés, tapada com pedras e areia, no que resta da antiga basílica. “Temos a esperança de um dia as poder valorizar, pelo que a conservação é, para já, a nossa prioridade”, explica a arqueóloga.

Enquanto essa oportunidade não chega, vai avançando o que ainda é possível restaurar das pinturas murais da basílica, com um investimento curto, à ordem de 5 mil euros por ano - desde 2012 – recorrendo a uma empresa especializada (Mural da História), apoiada pela Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, para quem as ruínas de Tróia traduzem um património histórico associado à pesca, indústria e transporte marítimo de mercadorias. Dos tempos em que os romanos fizeram da península a “capital do garum” (ver peça secundária).

Inês Vaz Pinto aponta para as três faixas que dividem as paredes, com três metros de altura, do antigo templo, onde o marmoreado surge na parte inferior, enquanto as outras duas faixas exibem um rol de decorações geométricas, alicerçadas, sobretudo, em octógonos. Há quem afirme que tratar-se da simbologia entre o céu e terra, conjugando o quadrado com o círculo.

Teorias à parte, pelas paredes espalham-se ainda flores, como rosáceas com longas pétalas e aves que se assemelham a pombos. A basílica antecedeu a construção Capela de Nossa Senhora de Troia, paredes-meias, que recebe a festa anual dos pescadores de Setúbal.

Na única coluna que se mantém erguida, do que resta de antigo conjunto de arcadas ganha especial relevo a pintura de um cântaro de pé. “Pode estar a evocar o batismo. É uma imagem habitual deste tempo”, explica a arqueóloga, garantindo que apesar da degradação imposta pelos cerca de 20 séculos, a basílica de Tróia apresenta-se como sendo das mais antigas da Península Ibérica, sendo a que garante o melhor estado e conservação. Para tal terá contribuído a areia que a cobriu durante centenas de anos. As escavações que a puseram à descoberta tiveram lugar já depois de 1970.

Ruínas que sobraram da “capital da garum”

A imponência das Ruínas Romanas de Tróia, traduz-se num raro complexo de produção de salga de peixe nas margens do rio Sado, que será o maior do mundo romano, com vista sobre com Setúbal, a “sua” antiga Cetóbriga. Por ali se produziu o distinto paté de peixe, celebrizado por “garum”, quando há 2 mil anos Tróia ainda seria uma ilha com o nome de Ácala.

Foi por ali que o império romano ergueu fábricas para deitar mãos a uma espécie de “produção gourmet”, com paté de peixe que era conduzido a Roma, via marítima, para abastecer, sobretudo, as famílias mais abastadas. Um preparado muito apreciado nas cozinhas da época e um grande negócio para os seus produtores, que exploravam o bom peixe desta região. A construção do complexo foi feita na primeira metade do século I, tendo a ocupação romana perdurado ao longo de 500 anos. Foi para tirar partido das potencialidades do peixe da região e da excelência do sal do rio Sado, associados ao clima, que os romanos construíram esta conserveira.

O complexo é conhecido desde o século XVI, mas só 200 depois viria a ser sujeito à primeira escavação, por ordem da então Infanta D. Maria - futura rainha – que permitiu desvendar as casas da chamada rua da Princesa. Nos meados do século XIX os trabalhos arqueológicos conduziram à descoberta do núcleo residencial e de parte das termas. Foi já em pleno século XX que foram desenvolvidos grandes trabalhos pelo Museu Nacional de Arqueologia que puseram a descoberto a totalidade da termas e a maior fábrica de salga, além de várias necrópoles. Hoje fazem-se visitas guiadas ao sítio que mostram as fábricas, oficinas de salga, as termas e “muito fora do comum” basílica paleocristã, diz Inês Vaz Pinto.

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