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Diario do Sul
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Mar revolto

Pescadores da região arriscam para tentarem “fintar” a crise

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção D.S.

17 Novembro 2015

O mar revolto no Litoral Alentejano ao longo deste outono tem criado sérias dificuldades aos pescadores da região, que tentam ir à faina. Ainda não se registaram ocorrências graves ao largo da costa, mas perante o mau tempo o porta-voz da Autoridade Marítima, Nuno Leitão, apressou-se a deixar o alerta: “as pessoas têm que ter cuidados redobrados quando vão para o mar». O presidente da Sesibal (cooperativa que junta os pescadores de Sines), Ricardo Santos, concorda, mas justifica que o risco é consequência da crise que afeta o setor nesta zona do país.

A região é uma das zonas de costa em Portugal que está sob o olhar atento da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), que acaba de revelar um relatório onde quantifica 70 mortes no setor das pescas entre 2005 e 2014, em todo o país, juntando naufrágios e faina, tendo registado ainda quase 12 mil feridos. Nas últimas duas décadas o distrito de Setúbal, que inclui os pescadores do Litoral Alentejano, somou mais de 40 vítimas mortais, tendo a mais recente grande tragédia ocorrido em dezembro de 2012 quando seis pescadores morreram após o “cochicho”, a embarcação onde seguiam, ter naufragado.

De acordo com dados do guia prático “Segurança e Saúde no Trabalho no Setor da Pesca - Riscos Profissionais e Medidas Preventivas nas Diferentes Artes de Pesca”, a maioria das vítimas mortais aconteceu em naufrágios (41), durante a faina de pesca registaram-se 19 mortes, havendo ainda a registar dez mortos de outras causas, não especificadas.

No que diz respeito à perigosidade do trabalho, a ACT afirma que o exercício laboral no setor da pesca «é um dos que apresenta maiores índices de sinistralidade, devido às características próprias da atividade», já que se realiza longe de terra firme, «no frágil equilíbrio de uma embarcação, com espaços de trabalho limitados, processos de trabalho física e psicologicamente exigentes e à mercê de difíceis condições naturais». “É frequente a precariedade nas relações laborais e a prática de horários de trabalho atípicos que assumem um impacto fortemente negativo nas condições da segurança e saúde no trabalho”, adianta.

As justificações
de quem tem que ir
ao mar

É aqui que entroncam os argumentos de Ricardo Santos, presidente da Sesibal. “Ir ao mar, para estes pescadores, é uma questão de sobrevivência. As pessoas não querem, mas são obrigadas a entrar no mar para dar de comer às famílias”, diz o dirigente conhecedor das dificuldades económicas dos cerca de 2 mil pescadores que percorrem o distrito.

Por isso admite que “se houvesse alguma almofada financeira” os pescadores não teriam a necessidade de “correr tantos riscos” quando o mar se apresenta revolto como tem sido uma quase constante no último mês. “Mas é preciso dizer que o preço a que vendemos hoje a cavala e o carapau é igual ao de há 30 anos e que só o gasóleo aumentou 400%”, exemplifica.

Mas haverá mais explicações que agravam o risco de quem tem necessidade de ir à faina com mau tempo, ainda segundo Ricardo Santos. “As nossas embarcações estão muito velhas. Era preciso uma renovação urgente da frota em vários quadrantes, que permitisse mais estabilidade e habitabilidade a quem vai a bordo. Isso também é segurança”, alerta.

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