Diario do Sul
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OPINIÃO

NOITES DO ALENTEJO

Era uma vez um formoso lugar repleto de casas brancas com vermelhos telhados.

Autor :Roberto Moso, jornalista basco, Rádio Euskadi

30 Junho 2017

Pelas suas estreitas ruas empedradas acedia-se a amplas e elegantes praças carregadas de história. Nelas podíamos encontrar tanto igrejas medievais como construções romanas.

Aquele lugar, situado no sul de Portugal, era o Alentejo e Évora a sua capital. Naquele espaço singular podia ver-se turistas, sim, mas não era um desses sítios inundados pelo turismo.

Todavia era possível disfrutar de livrarias à moda antiga, bares e tascas amistosas, restaurantes tradicionais e a preços razoáveis. Ainda que pareça estranho, naquela zona abundavam Presidentes de Câmara e Vereadores que se definiam, sem complexos, como comunistas. Muitos habitantes locais, ao que parecia, estavam contentes com o seu trabalho e votavam repetidamente neles.

Era o mês de Junho e na Praça chamada de “Giraldo” erguia-se um elegante palco. Estava prestes a arrancar o EXIB, encontro das músicas da Ibero America. Essa iniciativa unia durante quatro dias artistas Ibero Americanos, a programadores e jornalistas de diversos países do Mundo. Não eram em geral artistas muito conhecidos fora dos seus países.

Durante meses os candidatos submetiam-se a uma selecção muito difícil. Entre centenas de pretendentes havia que eleger uns vinte. Tocar no EXIB não era apenas a oportunidade de apresentar-se perante um público novo, é que, entre os espectadores, havia responsáveis de importantes Festivais, managers, jornalistas e inúmeros músicos. Não era, de maneira nenhuma, mais um Festival. 

Conseguir entrar no programa do EXIB poderia significar, como tinha sido demonstrado pelos resultados de anteriores edições, um importante empurrão na carreira de qualquer artista.

E assim passavam os dias naquele ambiente privilegiado. Pela manhã, na zona profissional - situada no formoso palácio de D. Manuel – multiplicavam-se contactos e entrevistas. 

Pela tarde era o momento das calmas e tranquilas actuações na Praça do Giraldo. Ao anoitecer chegava o turno dos artistas convidados; shows incríveis em pátios e lugares que pareciam decorados para um filme da Belle Epoque.  

Então, como que por magia, um manto de estrelas cobria aquele lugar e a cidade rendia-se à música para viver, espontaneamente, momentos irrepetíveis. Uns atrás dos outros sucediam-se guitarristas Argentinos, violinistas bascos, cantores chegados do México, da Catalunha ou da própria cidade, pandeireteiros galegos, virtuosos do Alaúde vindos do Curdistão.

Qualquer canto era bom para armar uma Jam sem necessidade de encontro marcado e sem hora para terminar… conversações musicais num clima participativo onde músicos e espontâneos criavam melodias incríveis.

O promotor coreano, o jornalista londrino, a directora de museu mexicana e o vereador de cultura do concelho fundiam-se com a música para logo segui-la com palmas, para dançar ou para desafiar a noite colorindo-a com manifestações de prazer.

Ao amanhecer, quando o galo cantava, cada um voltava ao seu lugar. Entre olheiras e catarro matinal voltavam as apresentações, as masterclasses, as assinaturas de contratos. 

Passados esses dias a cidade recuperava o seu ritmo habitual. Músicos e profissionais voltavam às suas casas e aqueles sons nocturnos deixavam de se escutar. Mas aí ficava, pairando no ambiente, essa valiosa mensagem: pessoas de diferentes latitudes, costumes e idiomas podem unir-se, entender-se e gozar juntos.

E bendito e louvado o conto está acabado.

 

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