Diario do Sul
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Alerta em tempo de festa

Faltam jovens ao futuro dos bonecos de Estremoz

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redação

22 Dezembro 2017

À primeira vista Ricardo Fonseca está apenas a enrolar pequenas bolas de barro, do tamanho de berlindes, mas em segundos passa o teque e desenha um rosto. Será para mais um dos presépios que tanta saída conquistaram nos últimos anos entre a barrística de Estremoz que acaba de conquistar o estatuto de Património Cultural Imaterial da Humanidade.

A má notícia é que Ricardo, na casa dos 30 anos, é hoje o artesão mais novo de Estremoz, porque os mais jovens não se têm chegado à frente para deitarem mãos ao barro. Não admira que a terra receie pelo futuro dos seus bonecos de barro.

“Esse é o nosso maior problema. Eu sou o mais novo, porque ninguém quer pegar nisto. Estamos a falar de arte com séculos e que corre riscos se não houver quem se interesse por isto”, admite o artesão, sublinhando que até já se tentou cativar as escolas para que promovam a barrística da terra entre os alunos, mas sem êxito. Ricardo recorda que começou ainda muito jovem quando nas férias entrava nas olarias e começava fazer figuras, até lhe apanhar o jeito. “Não pensava que iria fazer disto a minha profissão, mas acabou por acontecer e acho que tem valido. Sobretudo agora, com a classificação da Unesco, que é um orgulho para quem trabalha nesta arte”, assume.

À sua frente Ricardo tem uma quase finalizada imagem de Rainha Santa Isabel, com o ramo de rosas entre os braços, já de manto e coroa. É outra das figuras mais procuradas, tal como a Primavera e o Amor Cego, imagens de Carnaval que remontam ao século XIX. O artesão trabalha na olaria das “Irmãs Flores”, liderada por Maria Inácia e Perpétua.

É nesta loja do centro de Estremoz que se trabalha ao vivo, diretamente da mesa de mármore para o forno, antes das figuras pintadas serem expostas nas prateleiras da loja no centro de Estremoz. Começaram por aprender a mexer no barro há 45 anos, com o objetivo de ganharem a vida, mas acabaram por segurar nos braços a responsabilidade de manter uma tradição com três séculos.

Sai uma demonstração. Maria Inácia começa por esticar o barro antes de desenhar a saia do próximo "Amor Cego", um dos membros do figurado de Estremoz, com os olhos vendados. Barro sobre barro e sem recurso a cola, os bonecos lá ganham forma num artesanato à moda antiga, que utiliza apenas o canivete e o teque. O resto é feito com as mãos da artesã, como manda a tradição.

É por estas e por outras que os bonecos de Estremoz se foram celebrizando, numa arte popular em terra que foi de oleiros e que remonta a 1770. Os bonecos eram feitos por mulheres, quase sempre, até ao início do século 20, quando a extinção os ameaçou.

Foi preciso esperar cerca de 30 anos para que o figurado em barro voltasse a ver luz do dia. Já o lisboeta Caetano Augusto da Conceição tinha fundado a Olaria Alfacinha, tendo sido o neto, Mariano da Conceição, a pegar na tradição bonequeira à boleia de Ana das Peles, uma resistente artesã que ensinou as técnicas ancestrais a Sabina Santos. Seria ela a mestre de Maria Inácia, vai para 45 anos.

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