Diario do Sul
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Espécie exclusiva do Guadiana

20 mil peixes exóticos retirados de ribeira para salvar saramugo

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redação

29 Dezembro 2017

A ação foi levada a cabo ao nível da bacia do Guadiana, à boleia do designado Projeto LIFE Saramugo, que teve início em julho de 2014. Perto de 20 mil indivíduos de peixes exóticos foram removidos da ribeira do Vascão, procedendo-se ainda ao desassoreamento de um pego onde é conhecida a ocorrência de saramugo com o objetivo de aumentar a disponibilidade de água para a vida aquática durante o verão.

A informação é avançada pelo Blue-oak.net, que dá conta da execução de várias ações ao longo deste tempo que aponta à conservação do saramugo. É um peixe como não há em mais parte nenhuma do mundo, sendo uma espécie exclusiva da bacia do Guadiana, que entrou em decadência acelerada, sofrendo uma redução de aproximadamente 80 por cento.

O saramugo passou a ser classificado como “criticamente em perigo de extinção". Tudo corria de feição a esta espécie endémica do Guadiana quando a mão do homem decidiu pôr fim ao seu sossego. A construção de barragens e açudes passaram a vedar o acesso às zonas de desova, criando descontinuidades nos cursos de água que foram isolando as populações. A poluição, motivada pelas descargas de resíduos agravou o cenário, mas também as extrações de areias se revelaram inimigas desta espécie enigmática.

Além de alterarem as características do habitat, destruíram vegetação aquática. A juntar a estas contrariedades está ainda o eterno problema de falta de água no verão alentejano, que obriga à captação do já designado “líquido precioso” nos afluentes do Guadiana, provocando a seca dos pegos, onde o saramugo tradicionalmente se refugia durante o estio. Depois, há ainda uma sobrelotação do habitat, provocada por espécies que, originalmente, pertencem a outras paragens que acabam por se adaptar, influenciando a existência do saramugo, que passa a sofrer a competição de outros ciprinídeos. É mesmo presa fácil de vários predadores, sendo que nem todos são peixes, embora o achigã tenha sido apontado ao longo dos anos como um devorador de saramugos.

O projeto LIFE tenta agora ajudar a conservar a espécie, bem como o seu habitat, em toda a área de distribuição historicamente conhecida de saramugo na bacia do Guadiana. Chamam-se Sítios de Importância Comunitária (SIC) de S. Mamede, Moura, Barrancos e Guadiana, tendo-se já realizado um levantamento e atualização dos fatores de ameaça nas sub-bacias onde a espécie foi detetada.

O Blue-oak.net cita o Ardila, Chança, Foupana, Vascão e Odeleite, onde se estudou o impacte do alburno (um peixe exótico da mesma família do saramugo) nas populações de saramugo e realizaram-se estudos sobre mecanismos de controlo de dispersão dessa espécie exótica.

Ainda segunda a mesma fonte, brevemente terão início ações de remoções de canavial e plantação de vegetação autóctone, assim como ações que visam limitar o acesso do gado às linhas de água, para melhorar a qualidade do habitat ribeirinho.

 

Esperança da reprodução em cativeiro

 Encontrando-se hoje “Em Perigo” nos Livros Vermelhos dos Vertebrados de Portugal e Espanha, há alguns anos que o saramugo vem sendo alvo de intervenções conjuntas do Alentejo e da Extremadura espanhola para tentar inverter o declínio a que a espécie tem sido votada. O peixe foi contemplado com o projeto LIFE , no qual a Faculdade de Ciências de Lisboa fez um retrato da espécie, sendo que no âmbito do chamado Plano de Gestão para a Conservação do Saramugo, o Parque Natural do Vale do Guadiana (PNVG) tem vindo a realizar ensaios de reprodução daquele peixe em cativeiro.

A ideia dos biólogos é conseguir criar bastantes stocks de saramugos, para sua posterior libertação na bacia do Guadiana, assegurando desta forma a preservação da espécie. De resto, num dos anos de maior seca que assolou o Alentejo (2005), em que o inverno não conheceu a chuva, após um outono que se confundiu como verão, o PNVG logrou salvar a vida a 197 saramugos que estariam condenados se permanecessem nas ribeiras de Carreiras, Chança e Vascão. Após um trabalho de monitorização, 71 foram transferidos de local no interior das próprias ribeiras, enquanto 126 viriam a ser mantidos em aquário onde aguardaram que a chuva fizesse a regularização dos respetivos caudais para puderem regressar a “casa”.

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