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Tabernas do Alentejo - Arte e Ciência

A história da terra num copo de vinho à boleia da vinha mais alta de Portugal

Copos ao alto. "Um brinde à Serra de Mamede e à Ciência Viva". A proposta foi do enólogo Rui Reguinga, que trabalha vinhas centenárias num cenário edílico, com vista sobre a imponente vila de Marvão, a partir do vale de Porto Espada. Por terras que o império romano bem conheceu. A prova dos Terrenus, brancos que provêm de vinhas até 760 metros de altitude, fechou o primeiro encontro "A história da terra num copo de vinho", integrado no projeto Tabernas do Alentejo - Arte e Ciência.

Autor :Roberto Dores

22 Outubro 2018 | Publicado : 15:28 (22/10/2018) | Actualizado: 15:35 (22/10/2018)

Comecemos pelo princípio da jornada com ponto de encontro à porta da Cidade de Ammaia, o mais importante vestígio da sua época existente em São Salvador de Aramenha ( Marvão), ocupando uma área de 25 hectares. Durante a visita guiada ficamos a saber  que as ruínas foram classificadas como Monumento Nacional em 1949, mas estiveram abandonadas até finais de 1994, quando a Fundação Cidade de Ammaia passa a estudar e a preservar o que resta. Os documentos indicam que seria elevada a Civitas por volta do ano 44/45 d.C. tendo obtido o estatuto de Mvnicipivm ainda durante o séc. I d.C. 
O técnico António Jorge Raposo apresentou o museu, onde se exibem os utensílios, entretanto recuperados e restaurados dentro do possível, com séculos de história. Da ânfora à talha, da lamparina aos tachos, da lápide fúnebre em mármore e granito para distinguir mais e menos abastados. A maioria dos utensílios são feitos nos tradicionais barros, mas também já há loiça de  vidro entre os vestígios. 
Lá fora, apresenta-se o que foi a porta de entrada da cidade, o fórum, o templo e as termas. Há escavações novas em curso, porque, acreditam os arqueólogos, está muito por revelar à luz do dia.
É agora tempo de entrar pelos trilhos das vinhas de Porto Espada, onde Rui Reguinga produz as uvas que dão o Terrenus, em terras de quartzitos. A 760 metros de altura, eis que surge a vinha mais alta do país com uma particularidade sui generis: ocupa dez terraços da encosta, à semelhança do sistema que é conhecido nas vinhas do Douro.
"Temos aqui uma diversidade grande de castas, oito brancas e dez tintas. Muitas destas castas estão quase extintas no Alentejo. É um encepamento completamente diferente do que encontramos hoje na região", explica Rui Reguinga, para quem o facto da vinha ser "velha" e estar a elevada altitude também influencia a qualidade do vinho, proporcionando-lhe "um estilo próprio e diferenciador". 
Aliás, foi perante a possibilidade de garantir um vinho diferenciador que o enólogo e empresário decidiu investir numa vinha com um século. "O desafio foi maior do que o risco. Quando fazemos uma coisa de qualidade e diferente o risco é mais reduzido do que quando fazemos algo de qualidade mas igual aos outros. Aí sim, o risco é maior, porque é mais do mesmo", sustenta.
Por estes e outros exemplos, o presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), Francisco Mateus, acredita no potencial em redor do negócio do vinho, sublinhando que o Alentejo é mesmo a zona do país onde o setor tem mais espaço para crescer nos próximos anos. 
Ora vejamos porquê: "o Alentejo é a região com mais candidaturas, o que quer dizer que há vontade de plantar mais vinhas. E nós precisamos dessas vinhas", referiu, congratulando-se por terem sido aprovadas candidaturas para mais 800 hectares de vinhas, que podem ser plantadas até 2021. Já no ano passado foram aprovados outros 800 hectares e mais cem em 2016. "São 1700 hectares para plantar de vinha e isto significa que há vontade de investir", refere, alertando que isso "traduz a crença de que isto é um negócio com rentabilidade e que atrai investidores. É um sinal da vitalidade da região", resume.
Já Carlos Cupeto, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Évora, elogiava a paisagem que tinha pela frente em plena Serra de São Mamede, mas estendia o potencial a toda a região. "Isto não existe no mundo. Nós vivemos neste retângulo com todas as características que bem conhecemos, mas damos pouca importância ao património e aos bens que temos", dizia, dando como exemplo uma conversa informal com um casal brasileiro que um dia antes jantava numa esplanada alentejana, admitindo que no seu país não poderia estar ali e sentir-se tão seguro. 
"A questão da segurança, que nós temos e a que ninguém liga, acaba por ser um grande pormenor para quem nos visita", justifica Carlos Cupeto, destacando o "espanto" demonstrado pela comitiva que acompanhou esta jornada da Ciência Viva no Verão perante "a beleza desta paisagem, mas também com os trabalhos que as pessoas têm aqui feito". Carlos Cupeto dava o exemplo do investimento de Rui Reguinga, assegurando que há muitos mais empresários que se fizeram com sucesso ao campo.
Quanto à necessidade de levar gente para estas zonas despovoadas - um tema comentado ao longo da manhã perante a falta de mão-de-obra com que se deparam os produtores - Carlos Cupeto defende a intenção já manifestada pelo Governo, que aponta à imigração. Porém chama a atenção para a necessidade de qualificar pessoas que possam ocupar estes territórios. "Temos que investir em pessoas que queiram trabalhar cá", resumiu.

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