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Rui Dinis, diretor do Serviço de Oncologia do Hospital de Évora

“Não há atrasos no acesso à cirurgia, quimioterapia e radioterapia no Alentejo”

O relógio não pára para os doentes oncológicos. A ida ao médico de família, o diagnóstico, o encaminhamento para o hospital e para o processo de tratamento são fatores decisivos para quem passa a ter o cancro como companheiro de vida.

Autor :Maria A. Zacarias

11 Dezembro 2018

Tudo parece demorar muito tempo, mas o diretor do Serviço de Oncologia do Hospital do
Espírito Santo de Évora (HESE) garante que não. Rui Dinis assevera que a região está
abaixo do tempo recomendado para o doente ter a primeira consulta hospitalar e explica
que todos têm o mesmo acesso aos planos terapêuticos, onde se inclui a cirurgia, a
quimioterapia e a radioterapia. O responsável afirma que não há lista de espera para
nenhuma das doenças oncológicas que tratam e que toda a região está coberta com o
apoio do serviço, existindo polos nos outros quatro hospitais do Alentejo, onde há
acompanhamento personalizado e adequado às necessidades de cada utente. O médico
salienta ainda que existe uma consulta de decisão terapêutica que possibilita que uma
equipa de especialistas analise e decida o que fazer a determinado doente sem que este
tenha que se deslocar a Évora. De acordo com o entrevistado é o binómico – qualidade e
proximidade – a funcionar, colocando o doente no centro do Serviço Nacional de Saúde.


Qual é o peso que tem, atualmente, o cancro na região?
O Alentejo, por ser uma das regiões do país mais envelhecida, é uma das que tem maior
incidência de prevalência de cancro. Os mais prevalentes são o do pulmão, o cancro da
mama e os cancros digestivos, nomeadamente o do colón-retal. Somos, em particular, a
região de liderança em Portugal em termos de cancro da mama e de cancro do cólon. As
razões são várias, nomeadamente a idade, mas também hábitos de alimentação,
dificuldade em fazer o diagnóstico precoce resultante da dificuldade que existe em os
doentes se deslocarem ao médico de família. É importante que as pessoas cheguem
numa fase atempada ao médico para que possam fazer um tratamento curativo porque é
mais fácil quando se apanha o cancro no início.


Que garantias dá de que os doentes oncológicos alentejanos têm o mesmo acesso a
todos os tratamentos necessários?
Em qualquer dos locais onde os doentes residam não existe tempo de espera para a
primeira consulta, tempo de espera para início dos tratamentos e podemos assegurar que
todos os doentes têm acesso às terapêuticas e a todos os tratamentos de quimioterapia e
radioterapia. Não há qualquer atraso ou dificuldade no acesso aos tratamentos de
cirurgia, quimioterapia e radioterapia. O nosso serviço tem uma estrutura regional com
sede em Évora e polos nos outros hospitais distritais de Portalegre, Beja, Elvas e
Santiago do Cacém. Em todos estes hospitais existem unidades de hospital de dia que
contam com uma equipa bem preparada de enfermagem e apoio médico permanente.
Todos os doentes são tratados, em primeira consulta, num prazo máximo de sete dias,
por isso não temos lista de espera para nenhuma das doenças oncológicas que tratamos.

Qual é o período de espera para uma consulta de oncologia?
O período de espera de uma consulta aceite é até 15 dias, mas nós garantimos até aos
sete dias porque temos a plena consciência de que o tempo em oncologia é vida. De
salientar que o Serviço de Oncologia tem também várias estruturas de consultas de
decisão terapêutica em todos os polos distritais, bem como uma consulta de decisão
terapêutica regional.

Como é que isto se processa? Por videoconferência. Por exemplo,
na área do cancro da mama e do cancro do reto.
Quem é que constitui a consulta de decisão terapêutica?
Esta consulta tem grande importância por ser aqui que se decide o tratamento,
permitindo ao doente ganhar tempo. Nesta consulta estão reunidas várias especialidades.
Além da oncologia médica há a cirurgia geral, a radio oncologia, a gastroenterologia, a
pneumologia, a anatomia patológica, a equipa de enfermagem, a farmácia, isto é, todas
as especialidades que contactam direta e indiretamente com o doente oncológico. Em
vez do doente andar a circular de especialidade em especialidade, num só momento é
feito logo o plano terapêutico para o doente, para que ele tenha acesso ao que é melhor
para ele. Tudo para que o doente não veja atrasado o processo do tratamento.


Na sua opinião, há razões para se questionar o funcionamento da resposta à
doença oncológica no Alentejo?
Os princípios que norteiam o nosso serviço são: a equidade, a uniformização e
excelência dos cuidados para cumprir o binómico - qualidade e proximidade. É o
médico que se desloca e não o doente. É o doente que está no centro do Serviço
Nacional de Saúde. Aquilo que pode condicionar alguma dificuldade a nível nacional e
europeu é o atraso do diagnóstico. Ou seja, é o tempo que medeia entre os sintomas e a
ida ao médico porque assim que o doente chega ao hospital é tratado muito baixo dos
tempos máximos recomendados. Podemos garantir que somos dos serviços e das
regiões em que os doentes têm melhor acesso aos tratamentos.


Quer partilhar algum caso surpreendente que tenha passado pelo serviço?
Há muitos casos surpreendentes. Há determinadas patologias cujo prognóstico é pior.
Há doentes que vieram de outros hospitais com prognóstico de poucos meses de vida e
hoje estão bem, vivos e há muitos anos connosco. Isto já nos aconteceu nos cancros da
mama, do rim e do pâncreas. De salientar que os nossos resultados de sucesso estão
acima da média. O que queremos fazer é acompanhar estes resultados de eficácia com a
promoção de uma maior qualidade de vida, para que os doentes vivam mais e melhor.

“Cada vez se morrerá menos de cancro”
Quais são os desafios do Serviço de Oncologia do HESE para 2019?
É um ano crítico para o crescimento do nosso serviço e para a afirmação da nossa
região. Aquilo que é mais prioritário, uma vez que o tempo que o doente tem até
começar os tratamentos é vital para o seu sucesso, é a ligação cada vez maior com os
cuidados primários. O Alentejo caracteriza-se por ter uma dispersão geográfica muito
grande, há milhares de pessoas que vivem muito distantes dos hospitais e o que
queremos é diminuir as distâncias. Isso é possível através das novas tecnologias,
fomentando a ligação com os médicos de família e com a nossa aproximação para trazer
esses doentes mais cedo para o processo de tratamento.

Qual é a mensagem que quer deixar aos doentes?
É preciso tranquilizar as pessoas para o facto de que hoje em dia ter um diagnóstico de
cancro já não é uma sentença de morte. Mais de 80 por cento dos cancros da mama, por
exemplo, já são curáveis ou permitem ter uma esperança de vida muito grande. É
importante que as pessoas estejam atentas, tenham uma atitude proactiva relativamente
à sua saúde. Os tratamentos são cada vez mais eficazes e embora a doença oncológica
vá aumentar nos próximos anos, cada vez se morrerá menos de cancro.

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