Diario do Sul

Miguel Bastos Araújo em entrevista ao El Mundo

Alterações climática trazem muito calor mas cientista de Évora diz que vamos resistir

"Estamos a viver um período de transição que pode ser difícil, mas isso não implica o nosso fim. Por enquanto, temos a capacidade de nos adaptar às mudanças, embora o façamos com algum sofrimento".

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção «Diário do SUL»

15 Fevereiro 2019

A declaração foi proferida por Miguel Bastos Araújo, investigador da Universidade de Évora que recentemente foi distinguido com o Prémio Pessoa 2018, numa entrevista ao jornal espanhol El Mundo.
Numa conversa em que o cientista de Évora abordou a sobrevivência do ser humano perante o desafio das alterações climáticas, Miguel Bastos Araújo mostrou cautelas e otimismo rumo ao futuro, receando que várias espécies corram riscos, tanto pela mudança do clima, como pelo simples de facto de partilhar o planeta com os humanos.
Sublinhou mesmo que "a relação do ser humano com este mundo é como a de um elefante numa loja de porcelana. Mesmo quando tentamos manter uma atitude altruísta em relação às outras espécies nós tendemos a fazer coisas que são negativas para eles", disse. Alertou ainda o investigador do Museu Nacional de Ciências Naturais do CSIC e professor convidado na Universidade de Évora, que perante esta realidade é preciso sensibilizar a sociedade para que tente fazer um maior esforço no sentido de perceber que o "nosso futuro como espécie depende da biodiversidade".
Miguel Bastos Araújo insistiu que "não somos os únicos a viver neste mundo", tentando mostrar as consequências da degradação da biodiversidade global através do seu trabalho, tendo sido, de resto, esta questão que o notabilizou como um dos cientistas mais influentes da Europa.
Acrescentou que na Península Ibérica há hoje várias espécies em perigo, citando o caso das plantas alpinas, mas também animais que estão mais ameaçados porque não têm outro lugar para se refugiar. Há ainda espécies, como o lince, "que estão a ser deslocadas pelas mudanças climáticas", diz o cientista, acrescentando que o lince está a ser criado em cativeiro e foi reintroduzido na Andaluzia, Algarve e Alentejo.
"Mas foi extinto em meados do século passado, porque os coelhos - o principal alimento - não toleraram o aumento de aridez na metade sul da Península Ibérica. A mudança climática faz-nos repensar o projeto para reintroduzi-los no norte do território", revelou na mesma entrevista.
Instado a comentar o facto de estarmos na fase de transição para um novo equilíbrio climático e se antecipa um cenário catastrófico para nossa espécie neste período, Miguel Bastos Araújo respondeu que "não", argumentando que "somos uma espécie resiliente e iremos adaptar-nos, mas com algum sofrimento. Tenho 49 anos e nós estamos a viver num clima diferente face ao que existia na minha infância. Os meus filhos vão viver verões com ondas de calor mais quentes, quatro a cinco dias, mas os meus netos vão sofrer verões de ondas de calor prolongadas, de quatro a cinco semanas. Progressivamente, isso criará desafios reais para a saúde pública", avisou o cientista.
Miguel Bastos Araújo é "um dos investigadores mais citados nos rankings das publicações académicas e um dos autores mais consagrados internacionalmente pelo trabalho desenvolvido sobre as alterações climáticas e o seu impacto na biodiversidade".
O investigador, que nasceu na Bélgica, fala de um "caminho longo" para percorrer em matéria de conservação da biodiversidade, mas assume que o prémio Pessoa, conquistado em dezembro de 2018, vai ajudar a dar a visibilidade ao fenómeno, chamando a atenção para o trabalho desenvolvido na Universidade de Évora em torno desta temática. Assume tratar-se de um trabalho com expressão em termos nacionais.

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