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Dia Nacional da Língua Gestual assinala-se no próximo domingo

Marta Gato é surda e acredita que “nada é impossível”, apesar das dificuldades

Marta Gato frequenta o 12.º ano de Ciências e Tecnologias na Escola Gabriel Pereira, em Évora. Todos os dias vem de Estremoz para a escola onde tem uma intérprete de língua gestual a acompanhá-la em todas as aulas.

Autor :Maria Antónia Zacarias

Fonte: Redacção D.S.

12 Novembro 2015

O caminho até aqui não foi fácil, lembra, mas afirma que há uma frase em que pensa muito: “Nada é impossível. Temos que lutar muito para ultrapassar e foi o que eu fiz até agora. Lutei, lutei, lutei, lutei!”. Onde foi buscar a força? À Carolina, uma aluna de mestrado que vive em Lisboa e que é surda e cega. “Aprendi que é só lutar e seguir!”.

Mas e até conseguir seguir? Quando era pequena lembra que sentia-se diferente porque as pessoas ouvintes não aceitavam as pessoas surdas. “No jardim-de-infância tinha aulas sozinha com uma professora e percebia que tinha alguma diferença. No início foi muito difícil! Diz a minha transferência para Évora e integrei a escola dos Canaviais, mas quando iniciei os estudos na Malagueira o problema começou a agudizar-se”, conta.

A jovem adulta, 20 anos, não esquece o sentimento de inferioridade em relação aos outros. “Estava sempre com os surdos e tinha a ideia de que os ouvintes pensavam que nós éramos diferentes, ou melhor, não havia relação com os ouvintes. Quando passei para o quinto ano, pensei que tinha que mostrar aos ouvintes que era igual a eles… Os sentimentos foram melhorando e hoje sinto-me completamente integrada”, frisou.

A Marta aprendeu língua gestual através de um gestuário, um dicionário de língua gestual, enquanto andava no pré-escolar, mas foi só quando começou a estudar em Évora e com um professor de língua gestual que concretizou a aprendizagem.

A jovem adulta diz ficar muito contente porque, atualmente, “há muita gente que quer aprender língua gestual. É como uma língua mágica. As palavras nascem nas mãos”, sustenta. Mesmo assim, fala com os seus amigos de forma oral para que eles a entendam também, embora alguns já saibam um pouco desta língua. “Eu tenho terapia da fala, onde estimulo a fala, mas não falo como os ouvintes, mas interagimos plenamente. Peço aos meus amigos para falarem de frente para mim e pausadamente para que os possa entender de forma mais fácil”, sublinha.

Quanto ao futuro, Marta ainda está a decidir a profissão que quer ter. “Penso ir para a universidade, mas sei que não vou ter o apoio que tenho aqui. Não vou ter intérprete a tempo inteiro, mas um passo de cada vez. Vamos ver o que vai ser possível fazer”, avança. Até lá, agradece pela sorte que tem por consigo falar e garante que vai fazer de tudo “para ajudar os que têm problemas, quaisquer dificuldades ou deficiências”.

Intérprete ajuda a derrubar
barreiras linguísticas
e de inclusão

Elsa Martins, intérprete de Língua Gestual Portuguesa, é quem acompanha a Marta. Ontem o “Diário do Sul” assistiu a uma aula desta aluna e percebeu-se como tudo se torna tão fácil quando as pessoas se entendem. “Esta profissão surgiu de forma natural porque a minha irmã é surda e começou a surgir a necessidade no seio familiar de começarmos a comunicar com ela. Eu posso afirmar que, não de uma forma profissional, mas sou intérprete desde muito nova. Eu não me sinto a trabalhar porque faço o que gosto e aquilo com que sempre sonhei”, afirmou a Elsa Martins.

A intérprete está a acompanhar dois alunos surdos em todas as aulas. “Pretendo ajudar a derrubar barreiras para que se sintam plenamente integrados na sociedade. Há alunos que não aceitam o facto de serem surdos, alunos que vivem situações de possível discriminação”, adianta, acrescentando que “não podemos ainda dizer que existe igualdade. Ainda há muito caminho a ser percorrido e desbravado”.

O trabalho que faz com a Marta é de intérprete na sala de aula, integradora no meio escolar - quer através da realização de algumas iniciativas, como trazer-lhes exemplos de vida para que ela se sinta igual e para nunca desistir – como fora do contexto escolar em parceria com a diretora de turma desta aluna.

Professora considera que
o sucesso depende de um
trabalho em conjunto

Um exemplo foi o que aconteceu, na passada sexta-feira, com uma visita a uma exposição ao Fórum Eugénio de Almeida com a professora de Português e diretora de turma da Marta, Maria do Carmo Mendonça. A docente explica que houve uma visita guiada com a intérprete e a Marta e um outro aluno “acompanharam muito bem a exposição, tendo feito uma boa interpretação da arte. Já fomos também à biblioteca e ao museu porque ela como ela é de Estremoz há locais da cidade de Évora que não conhece e são estas ações que fazem a diferença e que ajuda à integração”.

No caso concreto da Marta, a diretora de turma diz acreditar que a aluna vai longe. “Ela oraliza, tem um bom domínio do vocabulário e acompanha muito bem as aulas. Estamos a dar Fernando Pessoa e não revela dificuldades. Ela tem uma perceção muito positiva, está sempre a trabalhar e a perguntar sobre o que pode fazer mais em casa”, assevera.

Maria do Carmo Mendonça considera que lecionar a estes alunos com necessidades educativas especiais “é sempre uma experiência muito gratificante. Há um contacto humano, uma afetividade e o acompanhar de uma evolução que é feita ao longo dos três anos. É enriquecedor porque envolve a aluna, a professora e a intérprete”. E conclui: “É um trabalho em conjunto que consegue ter resultados muito positivos”.

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