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20 anos da comunidade “Fé e Luz” em Évora

Coordenadora afirma que “há um longo caminho a percorrer até à inclusão”

Hoje, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, falar-se de inclusão na sociedade ainda é uma utopia. As barreiras arquitetónicas têm sido mais fáceis de derrubar que as mentalidades. “Há ainda um longo caminho a percorrer”.

Autor :Maria Antónia Zacarias

Fonte: Redacção D.S.

03 Dezembro 2015

A afirmação é feita por Alice Caldeira Cabral, uma das fundadoras e coordenadora da comunidade “Fé e Luz” em Évora que assinalou, no passado sábado, duas décadas de existência.

Na festa promovida pela associação foi possível criar uma sociedade mais justa, onde as pessoas com deficiência conviveram de forma natural com todas as outras ditas normais. A alegria e a fé em Deus, sendo esta uma comunidade cristã, estiveram sempre presentes em todos os momentos. No final da festa, Alice Caldeira Cabral apelou à participação de mais famílias neste movimento com vista a ajudar a uma verdadeira integração de todos na comunidade em que vivemos.

A coordenadora da comunidade “Fé e Luz” salientou que, passados 20 anos, é preciso olhar para a história desta associação e perceber para que é que está vocacionada, bem como perceber o que não foi alcançado. “Não conseguimos muitos dos objetivos que tínhamos e que era que houvesse outras comunidades, ter pais que se juntassem a nós. A nossa comunidade está a ficar um bocadinho envelhecida e com poucas famílias, por isso, precisamos de famílias novas que estejam na disposição de se juntarem a nós”, frisou.

A mesma responsável lamentou dois factos. O primeiro que assenta nas famílias estarem muito centradas sobre si mesmas, “sendo difícil deixar que os filhos convivam com pessoas com deficiência”. Por outro lado, o problema das próprias famílias que têm descendentes com problemas que “não partilham connosco as suas vivências, optando por viverem sós”. E acrescentou: “Temos, atualmente, seis famílias e precisamos mais e famílias com capacidade de levar isto para a frente”.

Alice Caldeira Cabral afirmou que a “Fé e Luz” quer quebrar esse isolamento, quer ter mais jovens, “como estes que estão aqui e que gostam dos nossos filhos como eles são. Daí que esta festa ajuda-nos muito e dá-nos muita força”, sustentou.

Contudo, lamentou que o caminho “ainda é muito longo”. A seu ver, a sociedade vê a deficiência ainda como um estigma, algo que torna menor uma pessoa. “O desafio é que olhe para as pessoas com deficiência, sim, como um desafio de todos e não só daquela pessoa que tem uma limitação. Temos que ver como é que desfazemos aquelas barreiras que tornam as limitações pesadas e difíceis de viver”, asseverou.

Padres devem ser sensibilizados
à participação das pessoas
com deficiência nas eucaristias

Sendo este um movimento que visa a inclusão das pessoas na sociedade, mas muito especificamente na igreja, a coordenadora criticou o facto da maioria dos padres não perceberem a vantagem destas pessoas participarem ativamente na eucaristia. “Não é ficarem ali no seu cantinho sossegadinhas. A participação delas vale a pena porque cada uma destas pessoas tem um dom”, reforçou. E prosseguiu: “Há atividades pontuais em que eles aceitam bem e temos tido experiências muito interessantes, mas não está nada organizado.

“Por exemplo, se uma catequista tem uma criança surda ou com uma deficiência intelectual mais importante, onde é que ela vai buscar orientações? Como é que um surdo se confessa?”, questionou Alice Caldeira Cabral, afirmando que não há padres com conhecimento de língua gestual. “Em alguns pontos do país já começa a haver missas também em língua gestual, mas ainda é vista como algo acessório”, reiterou.

A responsável pela comunidade “Fé e Luz” disse estar consciente de que a acessibilidade do ponto de vista das barreiras arquitetónicas “já começou a entrar um bocadinho na conversa, mas não se trata somente disso, é preciso uma verdadeira inclusão a todos os níveis”.

Uma inclusão como foi a festa de aniversário dos 20 anos de existência da associação que começou com uma concentração na Praça do Giraldo, uma arruada pelo Gigabombos – Do Imaginário e a festa no auditório Mateus de Aranda com um espetáculo de dança inclusiva e com um teatro sobre a história de um movimento que não desiste de mostrar que todos somos diferentes, todos somos iguais.

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