Diario do Sul
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Depois do reconhecimento da UNESCO

Autarca diz que o futuro dos chocalhos passa por escolas e centros de formação

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção D.S.

10 Dezembro 2015

O presidente da Câmara de Viana do Alentejo, Bernardino Bengalinha Pinto, quer atrair aprendizes até à arte chocalheira, considerando ser este o passo mais eficaz para garantir a preservação daquele património agora distinguindo pela UNESCO, com o rótulo de “proteção urgente”. “Ou por via da formação profissional ou por via da educação. O futuro desta arte terá que passar por aí e com condições especiais”, registou o autarca ao “Diário do Sul” à margem da cerimónia de homenagem prestada aos produtores de chocalhos do concelho, bem como ao coordenador da candidatura, o antropólogo Paulo Lima, e ao presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo, António Ceia da Silva. Um princípio de noite carregado de emoções em pleno palco da Mostra de Doçaria de Alcáçovas, testemunhado pelos ministros da Cultura, João Soares, e da Agricultura, Capoulas Santos.

E Bengalinha Pinto não tem dúvidas quando coloca a fasquia elevada: “Se é uma coisa especial, tem que ter tratamento especial”, avisou, para reforçar a importância de fazer chegar a arte chocalheira aos mais novos, sendo, para isso, necessário que outras entidades se juntem à autarquia. “Precisamos de encontrar meios que se adaptem a este projeto”, insistiu.

Por exemplo, “desburocratizar” poderá bem ser uma das palavras fortes para o futuro imediato. “Um empresário que agora queira admitir um formando, só o pode fazer se ele estiver inscrito seis meses no Centro de Emprego. Pensamos que com esta nova situação terá que ser arranjada uma exceção, onde já não seja preciso tanto tempo de espera”, justificou o edil, para quem a classificação dos chocalhos lança argumentos de esperança entre Viana do Alentejo e Alcáçovas.

“Pensamos que vai contribuir para o desenvolvimento do nosso concelho. Teremos a possibilidade de captar aprendizes, mas também aqui temos potencial cultural e turístico”, acrescentou Bengalinha Pinto, sem perder de vista o “papel fundamental da agricultura e do mundo rural” na conquista que os chocalhos obtiveram na capital da Namíbia a 1 de dezembro.

Aliás, o novo ministro da Cultura, João Soares, aludiu, precisamente, a esse 1º de dezembro – Dia da Restauração da Independência – para reforçar o simbolismo da data que consagrou os chocalhos do Alentejo. “Aumenta a importância histórica das Alcáçovas, onde foi assinado o Tratado que antecedeu o Tratado de Tordesilhas. Estes elementos simbólicos, do ponto de vista histórico, são de bom augúrio em relação ao futuro que temos de partilhar juntos na preservação e defesa do património cultural”, destacou o governante.

O que poderá agora ser feito para capitalizar o reconhecimento da UNESCO em torno dos Chocalhos? “Muito trabalho, com seriedade, empenho e com humildade. É nessa linha que vamos continuar, sempre com dedicação total ao que tenha que ver com preservação do nosso património cultural e da identidade histórica”, acentuou João Soares, admitindo residir aqui uma riqueza económica que “torna o país mais competitivo nesta Europa que está tão difícil”.

Já o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, não esqueceu alguns dos que contribuíram para trazer até aos dias de hoje a tradição dos chocalhos. Desde os criadores aos guardadores de gado. “A arte chocalheira, desde tempos imemoriais, que está associada à atividade pecuária, porque era preciso localizar os animais. Cada chocalho tem um som diferente e quem tem bom ouvido até sabe de que animal se trata”, recordou o titular da Agricultura, admitindo que os tempos modernos têm eliminado este método, mas o valor simbólico mantém-se inabalável. Afinal, resumiu, “a ruralidade representa as nossas mais profundas raízes culturais”.

Os chocalhos que já são do Mundo

Dia de 1 dezembro de 2015. O fabrico de chocalhos em Portugal, ofício e manifestação cultural que tem no Alentejo a sua maior expressão a nível nacional, foi classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. A decisão foi tomada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura na 10.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, a decorrer em Windhoek, capital da Namíbia. A arte chocalheira já foi o ganha-pão de muitos. Hoje, contam-se pelos dedos os mestres chocalheiros em Portugal. O perigo iminente do desaparecimento desta arte nacional foi um dos motivos que levaram a UNESCO a aprovar, em maio do ano passado, a candidatura portuguesa do fabrico de chocalhos (ou arte chocalheira. Dos 13 mestres chocalheiros que restam no país, a maioria no Alentejo, “nove têm mais de 70 anos e os outros têm entre 30 e 40 anos, mas nenhum tem aprendiz”.

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