Diario do Sul
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A noite era de Reis

Há 40 anos que Portel reinventou o Cante e até um famoso “passarinho cantou”

Janeiro de 1976. Noite de Reis. Novos ritmos e instrumentos saíam para as ruas de Portel reinventando o Cante Alentejano.

Autor :Roberto Dores

Fonte: Redacção D.S.

08 Janeiro 2016

O mesmo que hoje é Património Mundial. Não faltaram alguns críticos que consideraram as novas sonoridades como uma espécie de “adulteração” do que até então se conhecia dos grupos corais alentejanos. Mas também esses acabaram por se render aos dons do mestre Norberto Rosado para musicar letras. Ainda por aí se ouve o célebre “Passarinho” que cantava à porta da sua amada pelas quatro da madrugada. Foi com esta moda que o Grupo de Cantares de Portel havia de chegar aos primeiros lugares do top nacional. Quem diria!

É dia de festa em Portel, pois claro, à boleia da celebração dos 40 anos de vida desta espécie de Rolling Stones do Cante Alentejano, que continua fiel às origens, depois de dar a conhecer a vila ao país e ao mundo. Cerca de uma dezena de discos revelam alguns segredos de Portel, os sacrifícios de quem trabalha a terra e até histórias de uma cegonha que fazia o ninho na igreja lá do sítio. Há também uma tal de Romana que tinha um caso com o Pimentinha. Ao som do acordeão, viola ou bandolim. Por aqui passaram várias gerações e famílias e mais de uma centena de vozes.

Norberto Patinho, ex-presidente da Câmara e atual deputado na Assembleia da República, é uma das vozes principais do grupo. Ontem, logo cedo, publicou a foto do grupo na sua página do Facebook com o orgulhoso comentário “fazendo hoje 40 anos”. E os seus amigos “facebookianos” não ficaram indiferentes à data, dando os parabéns ao longo do dia.

Mas, afinal, entre altos e baixos ao longo de 40 anos, como está hoje o grupo? “Posso garantir que o estado de saúde está bom. Pelo menos está melhor do que há um ano e tal quando tivemos uma ligeira paragem em que não nos juntámos para cantar com a frequência que era hábito”, revela Norberto Patinho, justificando que um grupo com a quantidade de elementos como o de Portel, mais de 20 nesta altura, por vezes tem que enfrentar alguns percalços.

“Nunca esteve em causa a continuidade do grupo e até vai haver um esforço acrescido para retomarmos a atividade. Já está combinado entre os vários elementos, até porque nesta altura a maioria são jovens que garantem o futuro”, sustenta Patinho, acreditando que o propósito que esteve na origem do grupo de cantares é para manter: “Fazer amigos e confraternizar. É isso que continuamos a querer”. Eis o ADN.

Para o presidente da autarquia, José Manuel Grilo, a efeméride merece ser sublinhada, principalmente pela promoção que o Grupo de Cantares de Portel conseguiu garantiu para o concelho, mas também para a região. “Posso estar a ser defensor em causa própria, mas o nosso grupo levou muita gente a apoiar o Cante Alentejano, que passou a ser visto de outra forma. As pessoas começaram a querer molhar os pés na nossa música e ainda hoje se canta o Passarinho em qualquer festa. É sempre uma animação”, sublinha o autarca.

Uma curiosidade. A letra do “Eu Ouvi Um Passarinho” já tinha décadas, quando foi musicada pelo mestre Norberto Rosado. A questão é que até aí era cantada com uma cadência muito grande e não ficava no ouvido. Daí a surpresa quando alcançou o “estrelato” à boleia do Grupo de Cantares de Portel em 1984. A “saída” foi tal, que a própria editora lançou um single sem avisar o grupo. De resto, ficam para trás tempos marcados pelas dificuldades no lançamento dos primeiros três discos. Seriam os próprios cantadores a pagarem para gravar sem quererem nada em troca. Aliás, no dia em que foram gravar o Passarinho, receberam 30 contos (150 euros) da editora e gastaram... 50 (250) no almoço. Prioridades.

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